[[legacy_image_171137]] Será que sou eu entrando numa fase de pouca fé na humanidade ou realmente é insano chegarmos ao ponto de procurar um “lado bom” na iminência de uma nova Grande Guerra? Sim, certamente há quem defenda a guerra como o meio mais poderoso de estimular nossos avanços tecnológicos e descobertas científicas; uma “desgraça necessária” para impulsionar a humanidade. Eu prefiro acreditar que há outros meios. E que é triste demais reduzir a capacidade humana de evoluir a esse nível de animalidade, ou melhor, de irracionalidade, para não ofendermos os outros animais. Evitar ler as notícias, ultimamente, tem sido o meu remédio. Uau! Uma jornalista que evita as notícias! Sim. Leio as básicas, para me manter informada com aquilo que é útil, mas confesso que não chafurdo nos detalhes grotescos. Faço isso por mim, porque noto que perco facilmente a capacidade de manter-me sã, equilibrada, motivada a viver nesse planeta se não fizer isso. Escapo de várias formas para que minha permanência na Terra ganhe algum significado menos tacanho. Tento gerar boas memórias com amigos e com as pessoas que amo. E volto no tempo muitas vezes ao dia para revivê-las. Refugio-me nas músicas, nos cheiros, nos sabores e nas imagens que trago de volta para meu presente, no intuito de atar-me à alegria que teima em escapar, em escorrer pelos dedos. Porque, claro, não deixo de cumprir minhas obrigações cotidianas, inclusive as chatas e rotineiras, das quais não se pode fugir para se sobreviver — e isso inclui o trato com diferentes tipos de pessoas no universo do trabalho. E assim eu sigo, no limiar entre a realidade austera da vida e o colorido dos sonhos cheios de símbolos, que sempre me dão alguma pontinha de vontade de acreditar no “Vilarejo”, criado e cantado pela Marisa Monte. Ainda que “só por hoje”, como cantou Renato Russo. E então, vêm meus sonhos, que brincam de me dizer o que a realidade não consegue. E entre encontros com familiares, amigos e amigas, brasileiros e portugueses, todos reunidos numa noite estrelada na praia de Santos, naves espaciais cheias de cores chegam rapidamente e pousam sobre o mar. E eu sei que preciso me despedir e seguir viagem. Será um desejo oculto — ou nem tão oculto assim — de fugir do planeta? Pode ser. Mas o sentimento, na hora, é de um profundo lamento por ter que deixar aquelas pessoas tão raras, tão necessárias ao mundo, tão importantes, feitas da mesma carne e dos mesmos ossos que eu e você. As naves dão o sinal de que é chegada a hora de embarcar. Alguns se levantam da areia e começam a subir até elas por fachos de luz multicoloridos. Eu atraso o embarque o máximo que posso... Mas acabo partindo. Não lembro o que acontece depois. Só acordo com a boa sensação de voar até a nave e com a lembrança do desejo da infância de ser astronauta. Olho as horas no meu celular: são seis da manhã e já estou atrasada. Hora de voltar à realidade e começar mais um dia. No caminho para o trabalho, troco a imagem do papel de parede do telefone para a ilustração de um astronauta, com o braço direito em riste, voando para uma nave que deixa um rastro de arco-íris. Perfeito! Toda manhã, de agora em diante, ao olhar as horas ainda antes de o sol nascer, vou lembrar que é possível sonhar com naves, pessoas boas e planetas que podem evoluir, criando realidades a partir de bons sentimentos, representados por luzes multicoloridas que nada têm a ver com explosões.