[[legacy_image_321222]] As redes sociais são viciantes. A compulsão por acessar Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube e outras plataformas nos faz interagir, em média, 2.617 vezes ao dia com nossos smartphones. Este fenômeno é responsável pelo dilaceramento do tecido social, corroendo as bases fundamentais de como as pessoas se comportam consigo mesmas e com as outras. Quem diz isso é nada mais nada menos que Chamath Palihapitiya, um ex-alto executivo do Facebook. Ele alerta que as interações humanas estão sendo limitadas a corações e polegares para cima. “Os ciclos de retroalimentação de curto prazo impulsionados pela dopamina que criamos estão destruindo o funcionamento da sociedade. Sem discursos civis, sem cooperação, com desinformação, com falsidade”. Entre tantos sintomas desse dilaceramento apontado por Palihapitiya está o narcisismo. O professor Jonah Berger, autor do livro Contágio - Por Que as Coisas Pegam, ao investigar os motivos que fazem produtos, ideias e comportamentos terem sucesso, destacou um ingrediente interessante: moeda social. Basicamente, ele aponta que ser o primeiro a ter uma experiência ou receber uma informação e compartilhá-la é um impulso que, no mundo digital por exemplo, nos ajuda a criar e valorizar o nosso avatar. O pensador estóico Lúcio Aneu Sêneca, que viveu no período do Império Romano no início da Era Cristã, inspira uma reflexão sobre isso. Lendo alguns de seus livros, separei alguns trechos e fiz um paralelo com nossos comportamentos nas redes sociais: 1. Expor as intimidades em excesso Ninguém permite que sua propriedade seja invadida e havendo discórdia quanto aos limites, por menos que seja, os homens pegam em pedras e armas. No entanto, permite-se que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzam seus invasores a isso. 2. Opinar sobre absolutamente tudo Penso que muitos poderiam ter chegado à sabedoria se não pensassem já serem sábios, se não tivessem dissimulado para si mesmos algumas coisas e se não tivessem passado por outras tantas de olhos fechados. Não há razão para pensares que a adulação alheia nos é mais perigosa que a nossa própria. 3. Viver de espiar a vida alheia Certamente, miserável é a condição de todas as pessoas que sobrecarregam a sua vida de cuidados que não são para si, esperando, para dormir, o sono dos outros, para comer, que outro tenha apetite, que caminham segundo o passo dos outros e que estão sob as ordens deles nas coisas que são as mais espontâneas de todas - amar e odiar. Se desejam saber quão breve é a sua vida, que calculem quão exígua é a parte que lhes toca. 4. Entregar o nosso tempo Certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer. Sêneca defende que são grandes e sábios aqueles que não permitem que lhes tirem nada de seu tempo. É isso que grandes corporações como Facebook e Google fazem: disputam escarnecidamente o nosso tempo para que sua máquina de negócios não pare. Isso me preocupa pois, como você, não estou imune. O que você acha? Deixo, como reflexão final, outro pensamento de Sêneca: “Frequentemente, alguém muito velho não tem outro argumento para provar que viveu muito a não ser a sua idade”.