[[legacy_image_190688]] Durante quatro séculos, milhares de mulheres foram queimadas vivas acusadas de praticar bruxaria. Na realidade, isso não era sobre feitiço. Era sobre espaço e poder. Em especial no chamado “o grande século 16”, período entre 1450 e 1650 que foi marcado por significativas transformações (e brutalidades) no sistema econômico do mundo, as ditas bruxas eram temidas. Não por causa da sua “magia”. E sim por serem portadoras de saberes que abrangiam áreas como astronomia, biologia e ética. Por serem livres no exercício da própria sexualidade e do prazer além da procriação. Por ocuparem papéis de decisão e lideranças dentro das suas comunidades, estabelecendo formas de organização tanto política quanto econômica. Essas mulheres eram figuras de autoridade, que atravessavam os interesses de sociedades e instituições patriarcais. Com a transmissão de conhecimento via tradição oral, de geração em geração, os seus corpos lançados ao fogo eram os “livros” de suas ciências e consciências, que afrontavam os que compreendiam apenas a possibilidade da dominação. Tais mulheres dos povos indo-europeus ainda eram reconhecidas por falarem línguas como celta, eslava, báltica e germânica, entre outras. Aliás, cabe lembrar das mulheres da África e das Américas que acabaram sendo escravizadas e proibidas de viverem as suas tradições e epistemologias. Perseguidas e mortas. Cujas almas devem permanecer se contorcendo pelo sofrimento enfrentado pelas mulheres que hoje aqui estão. A ideia de patriarcado é a raiz de uma cultura de violência e subjugação do feminino, que nasce como uma supremacia do homem. E ganhou força durante processos de colonização (e devastação) de diferentes povos, se estendendo aos dias atuais. Os exemplos contemporâneos são constantes, inúmeros. Meninas de 11 anos intimidadas com violência psicológica. Mulheres em cargos de chefia espancadas por misoginia. Feminicídios, abusos, estupros, tapas na cara que tiram sangue. Cala-bocas em reuniões. De trabalho e de família. Direitos usurpados. Em nome de que mesmo? Com certeza, não em nome da bondade ou da vida. Há persistentes meios e repetições que tentam nos colocar em lugares menores. Só porque, juntas e curadas de tanta coisa, somos capazes de desestabilizar uma realidade construída e pautada na desigualdade, na destruição, no ódio e no medo. “Precisa de feminismo? As mulheres estão com tanta raiva…”. Custo a crer que não se saiba o motivo. O machismo é um preconceito. O feminismo é uma luta que só nasceu porque tivemos que aprender a nos defender. A pergunta é: a quem será que interessa tanto desqualificar um movimento que, em sua essência, é inclusivo e busca uma realidade mais justa e igualitária para todas e todos? E como dizem por aí: ainda bem que nós buscamos igualdade! Já imaginou se o desejo fosse de vingança? As nossas ancestrais nos lembram, durante os nossos sonhos, que somos melhores do que os métodos que usaram e usam contra nós. Que não é possível descansar. Não ainda. E que não esqueçamos que somos as netas das bruxas que não conseguiram queimar. O matriarcado já vai (re)começar.