[[legacy_image_208102]] Quando a pandemia começou, tive uma semana para aprender mil ferramentas tecnológicas e seguir dando aulas remotas às minhas alunas e aos meus alunos. Gerar link de transmissão, acertar o formato do vídeo, lidar com câmera e chats, ao mesmo tempo em que a tela era compartilhada para apresentar slides. Logo, isso virou rotina. Mas o que mais me preocupava era como não deixar laços de confiança, troca e afeto ruírem com a distância física das turmas. Eu ainda não sabia exatamente o que fazer. Eu mal sabia o que dizer. “Professora, o que a senhora acha que vai acontecer?”, me perguntou Carla, olhos assustados e semelhantes aos dos colegas, depositando em mim a esperança de entender o que enfrentaríamos. Um medo do desconhecido tão perceptível nas carinhas de cada um via câmeras de notebooks e smartphones – e que também era um temor meu. “Querida, não sei… Mas prometo que nas noites das terças-feiras vamos crescer em conhecimento e enfrentarmos juntas e juntos o que ainda não sabemos, certo?” Foi minha resposta sincera e que me fez entender: o mais importante seria tornar as aulas um espaço de acolhimento e fuga daquela realidade – meus slides coloridos, com glitter digital e gifs, ficaram famosos. Da experiência virtual nesse período com a garotada, eu trouxe para o retorno ao presencial, em sala de aula, o hábito de perguntar “como andam vocês?” Não só para saber como vai o trabalho, a compreensão do conteúdo, a expectativa para o semestre. É mesmo um convite para que me contem o que vai na cabeça e no coração, que ouçam as narrativas uns dos outros, que se reconheçam nas histórias dos amigos que também são as suas em algum grau. Um autocuidado coletivo que incentiva o autocuidado individual. Nunca precisamos nos cuidar tanto. Os reflexos dos choques dos últimos dois anos e meio estão por toda parte. Nesta semana, foi divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede o padrão de vida nos países. É a primeira vez em 32 anos de relatório que mais de 90% das nações registraram declínio em suas pontuações. Crises sociais, econômicas, políticas, climáticas, educacionais e sanitárias estão aprofundadas e são consecutivas, sem nos dar descanso. O documento aponta que o cenário de incertezas desequilibra a vida de forma inédita, com pessoas desconfiando umas das outras e polarizações e notícias falsas confundindo e gerando angústias. Autocuidado pode ser sobre aquela pausa para um chazinho que aquece, o momento de skincare, o se permitir um agrado que desacelere o dia. Tudo válido. Mas é, principalmente, sobre cuidar da saúde mental (como nos lembra o Setembro Amarelo) e dos relacionamentos em um mundo pesado. Ninguém está totalmente bem se consciente do grau de dissimetrias da sociedade. Precisamos de diálogos reais – não apenas esperar alguém terminar de falar para dizer sua verdade soberana e intimidadora. Precisamos de terapias das mais diversas – das individuais que olham para dentro e das em grupo que nos educam a escutar. Precisamos, acima de tudo, dar um jeito de impor tudo aquilo que nos lembra e nos ensina como amar.