[[legacy_image_270544]] Micaela Góes virou sinônimo de organização. Mas, antes de trabalhar como especialista em arrumação e comandar por dez anos o Santa Ajuda, programa do GNT dedicado a esse universo, ela deu seus primeiros passos na dança e, na sequência, focou na carreira de atriz, brilhando na TV. “Logo depois, fui fazer pós-graduação em Arteterapia, porque queria aplicar a arte para melhorar as vidas das pessoas”, conta. Foi em 2004 que Micaela passou a enxergar a organização como uma possibilidade profissional. “Venho de uma família em que ter a casa arrumada é algo normal, portanto não percebia que isso podia ser um serviço. Tudo mudou quando a Camila Pitanga, que é minha amiga e colega de faculdade, pediu ajuda para organizar o seu lar. Quando terminei, ela disse que eu podia fazer isso profissionalmente. Foi como um despertar”, afirma. A partir daí, Micaela tratou de desenvolver a sua forma de trabalhar e atender os clientes. “Lá se vão 19 anos que me dedico à organização profissional. Costumo dizer que a minha missão é transformar as vidas das pessoas através disso”, observa a atriz, apresentadora e especialista em arrumação, que, há seis anos, montou A Casa Com Vida, sua escola de formação de profissionais de organização. No GNT, agora integra o Desapegue Se For Capaz, programa comandado por Sabrina Sato em que Micaela e a arquiteta Gabriela de Matos auxiliam famílias a se desfazer do que não precisam mais em casa. Na entrevista, Micaela fala dos mitos e dos erros comuns na hora de cuidar do nosso cantinho. Você entrou para o time de consultores do Desapegue Se For Capaz. Como está sendo a experiência no programa?Durante dez anos, apresentei no GNT o Santa Ajuda, que era um programa de transformações pontuais nas casas das pessoas. Agora, o Desapegue Se For Capaz me proporciona uma experiência diferente. Ele me abre uma outra dimensão, porque trata da relação de apego das pessoas. O que acaba tendo a ver com os nossos hábitos de consumo, com a forma como compramos e juntamos coisas para preencher o nosso lar e os nossos vazios. Como consequência disso, corremos o risco de entrar num ciclo vicioso: conforme você vai adquirindo itens, tem de criar lugares para eles e, assim, precisa trabalhar mais para ter mais espaço para tudo o que está acumulando. Também necessita de mais tempo para cuidar do que possui ou, então, tem de pagar para alguém fazer isso. O apego leva a gente a se prender às coisas. Ele gera estagnação e é uma espécie de compulsão. Eu o considero o excesso, aquilo que está além do essencial. Por causa do programa, passei a estudar e pesquisar o apego. Quando você consegue se desfazer do que não precisa, abre caminho para o novo e para as coisas acontecerem. Ainda mais com a pandemia, começamos a nos dar conta de como preenchemos o nosso lar com itens inúteis, já que, no fim do dia, necessitamos de pouco para viver. Por acaso, fez um “Desapegue Se For Capaz” na sua própria casa?Estou acostumada a me desfazer das coisas. Eu, por exemplo, sempre tenho uma sacola do lado do armário para colocar as roupas que não me caem bem e que pedem um novo rumo. Mas, por causa do programa, me propus a praticar um desapego ainda maior. Lembro que, quando acabei de gravar os episódios em São Paulo e voltei para a minha casa no Rio de Janeiro, pensei: “Ela está muito cheia!” Então, tratei de reavaliar parte por parte do lar. A experiência que adquiri em todos estes anos entrando nas casas das pessoas me trouxe o entendimento de que o nosso lar é o reflexo do nosso mundo interior. Ou seja, a nossa mesa de trabalho reflete o nosso estado de espírito e assim por diante. A casa expressa sintomas do nosso mundo interior. Uma rachadura na parede que você não conserta nunca, o tempo que gasta para achar algo... Enfim, a forma como cuidamos das nossas roupas, das nossas panelas e do nosso sofá fala bastante sobre como cuidamos de nós mesmos. O nosso lar, portanto, reflete muito a nossa personalidade e o nosso modo de lidar com as coisas. É uma analogia que faz o maior sentido. Acredito que a organização vai bem além de encontrar um local para cada item. No meu entendimento, ela é uma ferramenta de facilitação do dia a dia. Basta ver que, se você tem uma casa arrumada, sobra mais tempo para outras atividades. A organização costuma deixar o cotidiano mais ágil e produtivo. Quais são os erros mais comuns que as pessoas costumam cometer?O primeiro se refere ao apego, ao excesso de coisas desnecessárias. Não estou falando de ser minimalista e, sim, de ter apenas o que realmente precisa. Não esqueça: o apego é o maior inimigo da organização. O segundo erro comum consiste em não estabelecer um lugar para cada coisa. Isso talvez demande um esforço maior no início, só que, quando você se recondiciona e se habitua a colocar tudo de volta no seu respectivo local, a sua rotina fica mais fluida. A terceira falha bem recorrente é procrastinar, ou seja, deixar para arrumar as coisas depois. Vai chegar uma hora em que a pilha de itens para organizar será tão grande que você vai deixar tudo para lá. Afinal, a organização é o oposto da procrastinação. Isso parece fácil na teoria, mas, na prática, nem sempre é tão simples assim.O que acontece é que a gente tem a cultura de encarar a organização como algo ruim e chato, como um castigo ou uma punição. É só lembrar da mãe que fala para o filho: “Se você não arrumar o seu quarto, não vai sair com os amigos”. Deveria ser diferente. A organização pode ser uma aliada nossa, e se fizermos um pouco por vez, acharemos ainda melhor e mais fácil. Muita gente também carrega a crença limitante – e que não passa de um mito – de que, se você não nasce com talento para arrumar as coisas, já era. A organização é uma habilidade que se desenvolve. Do mesmo modo como você não corre uma maratona do dia para a noite, é preciso treinar e aprimorar a capacidade de organização. Comece por uma gaveta, vá para a porta do armário e continue avançando. Uma hora, a casa inteira estará arrumada.