[[legacy_image_266756]] Aqui do meu apartamento, da janela da sala, consigo ver uma parte do estacionamento. Como moro no primeiro andar, acompanho os vizinhos entrando e saindo de seus carros. Sei a hora que alguns chegam do trabalho, que uma boa parte faz compras de supermercado aos sábados e que muita gente sai arrumadinha no domingo para o almoço. Não fico o dia inteiro na janela, não! É que escritores são observadores do cotidiano. Um tempo atrás, enquanto estudava, bem perto da janela do terraço, escutei o burburinho de duas crianças pequenas, animadas para entrar no carro, fazendo mil perguntas para a mãe. De repente, ela dá um berro, pedindo para que parassem de falar, que se sentia cansada e não encontrava a chave do veículo. Fui espiar. Cabeça encostada no carro, mãos na cabeça, meio puxando o cabelo, num ato de quem está no limite. Depois, percebi a chave no teto, perto da porta do carona. “Moça, a chave tá aí em cima, olha”, disse eu, apontando para o alto do carro. Ela pegou a chave, arrancou e foi embora. Não teve um “obrigada”. Passados uns dias, apareceu aqui na porta de casa, com um pacotinho de petiscos para a Charlotte, minha doguinha. Os filhos dela sempre dão bom dia, boa tarde e boa noite para a Chacha se ela estiver no terraço. Fiquei comovida. Em especial porque a vizinha não trouxe algo para mim, mas para minha filhotona. E sei que do estacionamento ela já me ouviu dando umas broncas na Charlotte – sempre turma do fundão, pronta para aprontar. Um gesto de empatia de mãe para “mãe”. “Muito obrigada por avisar da chave aquele dia. Não trato meus filhos daquele jeito sempre…” O receio dela de ser julgada em seu maternar era desesperadamente real. Hoje, há muito mais compartilhamento de experiências e situações difíceis que mulheres enfrentam na maternidade. Não apenas informações sobre como cuidar das crianças. É que, por mais que amem os filhos e o papel de mãe, também se estressam, cansam, desejam um tempo sozinhas, precisam cuidar de si mesmas ou ter alguém que possa cuidar delas. Além de lidarem com um sem-fim de cobranças. Perder as estribeiras vez por outra é legítimo num mundo de sobrecarga e tamanhos desafios para criar um ser humano. Neste Dia das Mães, o melhor presente é chegar para uma mãe que você conhece e perguntar se ela precisa de ajuda. Seja com uma tarefa, seja conversando, o que for. Ajude verdadeiramente com o que ela quer, não com aquilo que você julga correto. Já acompanhei o início da maternidade de amigas e primas. E para muitas, a pressão que vinha de fora, de como deveriam ou não agir com os seus filhos, levou a crises de pânico e de ansiedade. Outro presentão é deixar a mulher descobrir, no próprio ritmo, o que funciona para si mesma como mãe. Uma das minhas primas, ainda grávida, estabeleceu limites sobre como e quando pediria conselho sobre a maternidade e aceitaria ajuda, mas dentro daquilo que ela entendia como sendo positivo para a nova fase que chegava. Por exemplo, no mês em que o filho dela nasceu, não quis receber muitas visitas. Explicou que era um período de adaptação importante na vida dela e de seu pequeno, inclusive por questões de saúde – demorou demais para as pessoas entenderem que só os pais beijam recém-nascido. Muita gente ainda não entende. Então, por favor, não diga a essa mãe, cansada, que ela é guerreira – assunto que trataremos em breve. Entregue a ela um voucher de day spa e guarde as suas opiniões sobre como criar filhos para você.