[[legacy_image_297649]] Há poucos dias, Nelson Motta, famoso jornalista, compositor e produtor musical, publicou no seu Instagram triste texto sobre a partida de seu companheiro Max. “Nunca chorei tanto em minha vida”, confessou. Uma despedida sofrida, com gosto de lágrima salgada nos lábios. Para quem não sabe, Max era seu gato. Se tivesse visto esse post há pouco mais de dois anos, diria que Nelson estaria gagá. Primeiro pelo calor emocional a “apenas” um animal de estimação, e segundo, porque nem de cachorro se trata, mas, sim, de uma espécie interesseira, fria, que só procura o dono quando precisa de comida e abrigo. Ah! Que bom que dois anos se passaram! Porque agora que sou gateira posso escrever sobre o amor incondicional a esses bichanos curiosos, que ronronam, se comunicam literalmente com um piscar de olhos e nos protegem, dizem até, de males espirituais. Retomo primeiramente ao antigo Egito, onde eram símbolos do divino. Os egípcios perceberam que combatiam o pior de seus inimigos, os ratos, que destruíam suas colheitas, além de espalharem doenças. Daí a tratar como um membro da família foi, com o perdão do trocadilho, um pulo. A veneração era tanta que, quando perdiam um dos adoráveis bichinhos, raspavam as sobrancelhas em sinal de luto. No funeral, o mesmo rito que os seres humanos: a mumificação. Mais de 300 mil múmias de gatos já foram descobertas. História parecida ocorreu em Santos. Em 1988, o então prefeito Oswaldo Justo implantou o que popularmente se chamou de Operação Tom & Jerry. Gatos foram deixados nos jardins da praia para caçarem os ratos que infestavam o local, atraídos pelos restos de comida provenientes dos trailers de lanches, bem antes da chegada dos quiosques. Mas a adoração de agora vem crescendo não por causa de ratos. Recentemente, de 2020 a 2021, a população de gatos domésticos cresceu 6%, de acordo com o Censo Pet IPB (2022), de 25,6 milhões para 27,1 milhões, enquanto, no mesmo período, a quantidade de cães subiu 4%. Será que a pandemia impulsionou esse crescimento? Nos lares, nada de caça, não, não. Gatos são tão divinos como no Egito e o mercado pet segue essa tendência. Em São Paulo, os cat cafés viraram um movimento tão ágil como os bichanos. No cardápio, tudo gira em torno da temática dos felinos, mas quem visita logo perde o interesse pela comida ou ambientação quando se depara com o espaço onde vários gatinhos estão disponíveis para adoção. Mas por que tanta adoração aos gatos se vomitam pelo, destroem nosso sofá, não respondem ao nosso chamado e vivem se escondendo? A tendência de “gatificação” segue na área veterinária. Em São Paulo, um hospital atende só felinos e fica aberto 24 horas. A mídia e as redes sociais caçam esses petiscos. No Instagram, o perfil Cansei de ser gato foi criado por um pet influencer que atualmente vive disso, tanto que abriu sua primeira loja física, onde vende tudo inspirado, claro, nos felinos. Seu gato Chico, o CEO, tem contratos de exclusividade com marcas de ração, brinquedo infantil, chocolates e eletrodomésticos. Já o meme da “Marcia” faz rir até quem só gosta de cachorro. São imagens dos bichanos em situações inusitadas, chamando sua tutora, em tom de ordem, como se os papéis estivessem invertidos. Na realidade, parece que estão. Com sua graça e excentricidade, conquistam até uma cética como eu, que preciso terminar esta crônica, porque Leon me chama faminto da porta da cozinha, enquanto Iolanda me olha do alto do seu playground, instalado no escritório, como se dissesse: foi para isso que você me adotou, Marcia, ops, Adriana? Sim, minha ama, foi sim.