(Alexsander Ferraz) “Filho do senhor vai embora, tempo de estudos na cidade grande/Parte, tem os olhos tristes, deixando o companheiro na estação distante/ Não esqueça, amigo, eu vou voltar, some longe o trenzinho ao deus-dará”. Quando Alaíde Costa sobe ao palco do Sesc para o show de abertura do Santos Jazz Festival, o coração um tanto quanto endurecido pelas estocadas profundas da realidade percebe que há sempre possibilidade de transformação para quem se arrisca a atravessar o Morro Velho de Milton Nascimento. O trenzinho vai voltar, queremos que volte, trazendo um novo Outubro, utopias de eternidades, como eterno sempre será o poeta Fernando Brant. “Deixo tudo deixo nada/Só do tempo eu não posso me livrar/ Ele corre para ter meu dia de morrer/Mas se eu tiro do lamento um novo canto/Outra vida vai nascer/Vou achar um novo amor/Vou morrer só quando for/E jogar no meu braço no mundo”. E Alaíde joga seus braços e solta a voz nas estradas, não quer parar. Sabe que o caminho, mesmo de pedra, não a impede de sonhar um sonho feito de brisa. Mas há dias de sol e aqueles bem nublados, quando nossas lembranças abrem baús cheios de perdas e histórias interrompidas. “Se você não me queria/ Não devia me procurar/Não devia me iludir/Nem deixar eu me apaixonar”. Eternizada pelas vozes de Milton e Alaíde no clássico disco Clube da Esquina, a canção de Monsueto Menezes e Aírton Amorim mostra que, por vezes, o caminho é mesmo de pedra e que a nossa fragilidade perante os obstáculos da vida é quem determina como somos e o que podemos ser. Jogar os braços no mundo pode ser doloroso e Alaíde Costa sabe disso. O reconhecimento veio tardio, como ela mesma cita. Mas o show no Santos Jazz Festival foi uma revelação, para o coração um tanto quanto endurecido, de que é possível subverter o tempo ou mesmo ignorá-lo. Se não andamos mais com tanta agilidade, se as rugas saltam em nossas faces, se a voz não tem mais a mesma potência, podemos pensar que o que vale a pena mesmo é seguir em frente, não levando nada muito a sério. Neste espetáculo, leve como a vida deve ser, Alaíde pode brincar de eternidade ao ser acompanhada pela cantora Monna, o cantor Tiganá Santana e a Orquestra Sinfônica Municipal de Santos. Na presença da talentosíssima santista, viu que a voz feminina continuará encantando e abrindo novos horizontes, quando tudo parece perverso e perdido. Sem as vozes delas e de outras artistas, não haveria um Milton Nascimento, que cantou certa vez: “Sem as vozes que ele ouviu/Quando era aprendiz/Como pode sua voz ser uma Elis/Sem o anjo que escutou/A Maria Sapoti/Quando é que seu cantar iria se abrir?” Com a benção de vozes femininas de artistas como Alaíde e Monna é que, ao fechar os olhos, podemos ouvir os timbres de Bituca no cantar de Tiganá. E podemos ouvir a poesia de Ronaldo Bastos anunciando que podemos chorar sim quando as coisas não andam bem, e não andam, mas que sempre haverá, repito, novos horizontes: “Eu queria ser feliz/Invento o mar/Invento em mim o sonhador/Para quem quer me seguir/Eu quero mais/Tenho o caminho do que sempre quis/E um Saveiro pronto pra partir”. Nada será como antes, mas com Alaíde, Monna, Tiganá Santana e a Orquestra Sinfônica Municipal de Santos, sempre haverá o amanhã e o depois de amanhã.