[[legacy_image_339474]] Se você é mulher e está lendo esse texto, já deve ter ouvido esse conselho. Mães, avós, tias, amigas, enfim, mulheres preocupadas com nosso bem-estar nos avisam para alongarmos a saia ou fecharmos os decotes, evitando sermos alvo de homens mal-intencionados. Será que uma burca ajudaria a reduzir o número de estupros no Brasil? Infelizmente, tem muita gente (não só homens, vale lembrar) que acredita que a mulher “provoca” e, assim, tem sua parcela de culpa. Somos então responsáveis pelos próprios abusos sexuais que sofremos, mesmo quando acontecem com um pai, padrasto, tio, primo, avô, vizinho. Somente no primeiro semestre de 2023, foram registrados 34 mil casos no País: um a cada oito minutos. Segundo o Mapa da Violência contra a Mulher, cerca de 65% dos estupros ocorrem dentro de casa. O simples fato de sermos mulheres é um convite à violência. Somos violadas porque existimos e existir em uma sociedade sexista e patriarcal é muito difícil. Somos abusadas e sentimos vergonha e culpa por isso. Tanto que 60% das brasileiras que sofrem violência doméstica e familiar não levam os casos às delegacias. Justamente por causa desse olhar coletivo que acusa a vítima e a transforma em sua própria agressora. Há poucos dias, uma mulher foi estuprada dentro de uma delegacia no Guarujá. Em 2022, no Rio de Janeiro, uma mulher foi abusada durante o parto, enquanto trazia seu bebê ao mundo, pelo anestesiologista que a dopou com essa intenção. O jogador Daniel Alves foi considerado culpado por estupro na Espanha. Violentou a vítima no banheiro de uma boate e levou pena de pouco mais de quatro anos. A vida de uma mulher sofreu uma ruptura que nunca se colará e assim permanecerá para sempre. Porém, o agressor em pouco tempo viverá sua vida normal. E ainda dizem, com todas as provas, de que o interesse da vítima seria dinheiro. Como se isso trouxesse a dignidade de volta. O jogador Robinho também participou de um estupro coletivo em uma mulher em uma casa noturna, com outros amigos, na Itália. Condenado na Europa, vive em liberdade no Brasil. Uma conhecida minha, há muitos anos, foi estuprada em Santos atrás do balcão da gráfica onde trabalhava. O criminoso entrou como se fosse cliente, a violentou e saiu andando. Há alguns anos, no Rio, uma adolescente de 16 anos foi estuprada no ônibus, com três passageiros dentro que não perceberam o que acontecia no banco dos fundos. Cenas difíceis de imaginar, não? São reais, porém. Não precisamos estar isoladas ou em lugares ermos, andando pela madrugada. Mesmo ao redor de outras pessoas, corremos o risco. Não há segurança em lugar algum. O julgamento coletivo que fazem sobre as mulheres e a vulnerabilidade que nos cerca onde quer que estejamos faz parte de uma “cultura do estupro”, uma naturalização da violência sexual contra a mulher. Vale lembrar que o estupro é considerado quando o ato sexual é forçado, quando há a ausência de consentimento. Ou seja: não é não. Não estamos disfarçando um sim. Não estamos fazendo graça. Se mudamos de opinião antes do ato é porque algo não nos agradou e por isso recusamos. Forçar é crime. Causa-me admiração, porém, casos como os de Robinho e Daniel Alves não serem combatidos pelas próprias mulheres. Nós nos calamos. Essa cultura do estupro está tão enraizada em nossa sociedade que afeta até as vítimas. Somos vistas como seres inferiores, simples objetos de desejo e de propriedade do homem, o que autoriza, banaliza ou alimenta diversos tipos de violência física e psicológica. Violência sexual não diz respeito ao desejo, portanto, mas a dominação do mais forte ao mais fraco. Da subjugação daquela mulher que saiu linda de casa para dançar com as amigas e, quem sabe, encontrar seu príncipe e, no final, foi invadida na sua intimidade mais profunda e nunca, nunca mais, será a mesma. Mesmo vestindo uma roupa que lhe cubra todo o corpo, a vergonha e humilhação sempre estarão visíveis.