[[legacy_image_228711]] Já são três horas entre triagem, cadastro e espera para retirada do remédio. Quarta-feira, passa das 14h. Cai uma tempestade lá fora. Aqui dentro, em uma farmácia de medicamentos de alto custo do SUS, aguardo minha vez. Olho ao redor. Parece um ginásio, não uma farmácia. Nem sei mensurar quantas pessoas estão neste espaço. Mais de 600, com certeza. Os atendentes não param um segundo. Não dá para atender todo mundo com um sorriso no rosto. Ainda assim, são didáticos e atenciosos dentro das possibilidades. O que dava para resolver pelo celular, resolvi. Tenho lanchinhos na mochila. Avancei algumas páginas do livro As doenças do Brasil, do escritor português Valter Hugo Mãe. Mas esporte de cronista é prestar atenção na conversa alheia. Saí do meu autocentramento de energias voltadas ao tratamento de uma insuficiência pancreática para lembrar que minha luta é uma entre tantas. Especialmente, entre tantas mulheres. Não era difícil perceber que aquelas que retiravam medicamentos para si mesmas eram maioria. “Sou viúva”. “Com minha aposentadoria não consigo comprar remédios”. “Os remédios pesam demais no meu orçamento”. “Ou compro comida ou compro remédio”. “Pago as contas, mas para comer dependo de ajuda”. Conversavam umas com as outras, resignadas diante do tempo esticado, idades entre 50 e 80 anos. Acompanhando os flashes das histórias dessas mulheres, quase todas relacionando saúde e dinheiro, lembrei de uma das constatações mais frequentes de especialistas em finanças: o público feminino é o que mais enfrenta dificuldades financeiras na velhice. Elas cuidam mais da saúde do que os homens. Vão a consultas, fazem exames, tomam medicamentos. Têm menos tempo para se dedicar a atividades físicas do que eles, divididas entre tarefas domésticas, família e trabalho remunerado. Por outro lado, são mais conscientes dos cuidados médicos e da importância de uma alimentação equilibrada. O resultado é a longevidade. Mulheres vivem mais em praticamente todos os países. Viver muito, no entanto, não significa viver bem quando há aperto financeiro. O problema não é a longevidade. É não estar preparada para ela. Entre aqueles que ouvem coisas como “dinheiro é coisa suja” e “só fica rico quem rouba”, as mulheres são as mais impactadas por essas crenças tão erradas. A educação feminina sempre foi carregada de ideias de limitação e “o que as pessoas vão pensar?”. Uma dessas limitações é sobre ambição, que é diferente de ganância. Não é sobre passar por cima dos outros. Ambição leva adiante e ensina que a gente merece ganhar bem pelo que realiza bem. Estudos mostram que os pais falam de dinheiro mais com os meninos do que com as meninas. Essas meninas se tornam mulheres que não sabem negociar salário, temem se candidatar a melhores vagas porque acham que nunca são boas o suficiente e que o que ganham é para presentear, cuidar, agradar - e, em proporção muito menor, usar em benefício próprio. Soma-se aí a histórica desigualdade salarial entre gêneros. Dados deste 2022 do IBGE indicam que mulheres recebem cerca de 20% a menos do que os homens. Não menos importante, em uma sociedade ainda machista e patriarcal, muitas sofrem violência patrimonial, obrigadas a entregar parte ou todo o salário nas mãos dos homens da família para o que estes bem entenderem. Caso se neguem, sofrem agressão física. Com um novo ano quase na porta, eu diria às mulheres que sigam cuidando da saúde. Há um ditado que diz que com ela, o resto a gente corre atrás. Porém, é dinheiro que traz conforto, segurança, tranquilidade, realiza sonhos - pontos primordiais para o equilíbrio da saúde física e emocional. Aprendam a investir. Treinem na frente do espelho o pedido de aumento. Entendam os gastos que são reflexos de emoções não cuidadas. Estudem meios de poupar e aumentar a renda. Fujam de relações que exploram. Cobrem politicamente aqueles que tiram direitos sociais e econômicos da população. Presenteiem-se, claro! Nós merecemos! Aproveitem a vida! Mas que sejamos capazes de desenhar um futuro em que nenhuma mulher tenha que escolher entre tomar um remédio e ter o que jantar.