[[legacy_image_341150]] A frase “lugar de mulher é onde ela quiser”, pode parecer batida, mas só na retórica, pois na vida real, ainda são muitas as batalhas que enfrentamos para nos posicionarmos no mercado de trabalho. Na gastronomia não é diferente, mas há cada vez mais cozinhas profissionais sendo lideradas por mulheres em um ambiente antes quase totalmente masculino. Em 1981, Benedita Ricardo de Oliveira, a famosa e saudosa Benê, foi a primeira mulher a formar-se em gastronomia no Brasil. Fez o curso no Senac e tornou-se professora e chef. Uma inspiração. Hoje, as mulheres também estão no universo cervejeiro, de coquetelaria e por trás da administração de restaurantes e bares de sucesso. O Boa Mesa traz seis dessas incríveis mulheres que se dedicam à gastronomia na nossa região. [[legacy_image_341151]] Badalado Madê Isabelle Sato nasceu em Santos, mas aos 7 anos mudou-se com os pais para o Japão, onde morou por 15 anos. Ao completar a maioridade, começou a trabalhar em fábricas de automóveis para juntar dinheiro e fazer o curso de confeitaria na escola Le Cordon Bleu de Tokyo. Em 2017, regressou ao Brasil em busca de uma oportunidade na área de gastronomia. Passou três meses em São Paulo trabalhando em uma confeitaria na Avenida Paulista, mas decidiu retornar a Santos para fazer parte da equipe do Madê como auxiliar de confeitaria. Em 3 meses, foi promovida como chefe de confeitaria e em um ano assumiu também a chefia da cozinha quente. Seis anos se passaram e ainda segue junto com Dario Costa. Além do Madê, ela ficou três meses em Fernando de Noronha ajudando na abertura de um novo empreendimento do chef, o Alamoa. Hoje, aos 30 anos, está à frente da cozinha do Madê, o mais antigo restaurante do chef Dário, no comando de cerca de 15 profissionais. “A cozinha ainda é uma profissão muito machista. E ser mulher chefiando o Madê não é só sobre responsabilidade, e sim representatividade. Nossa brigada da cozinha é composta por muitas mulheres, cenário que não se via no início e posso dizer que muita coisa mudou positivamente. Podemos não ter a mesma força física de um homem, mas fazemos e pensamos em muitos detalhes despercebidos por eles”. [[legacy_image_341152]] Veia de empreendedoraA empresária Vivian Brum Cantarelli, de 44 anos, é proprietária da franquia China in Box em Santos e sua história na franquia começou há muito tempo. Filha única, de Porto Alegre, veio para São Paulo aos 4 anos de idade. Aos 17, foi aprovada em Pedagogia. O destino, entretanto, tinha outros planos. O pai faleceu e com ele também se foi a ajuda para pagar o curso. Assim, aos 20 anos, Vivian foi trabalhar na área administr ativa do China in Box. Ficou três anos. Em 2003, assumiu a gerência geral de uma nova loja da rede. Fez vários cursos e cursou Administração. Foi aí que nasceu a vontade de empreender e também fugir do trânsito de São Paulo e atender às necessidades do filho. Em 2006, veio para Santos e assumiu a unidade na Rua Azevedo Sodré. Três anos depois, a transferiu para a hoje Rua Gastronômica Tolentino Filgueiras. Inclusive, Vivian foi uma das fomentadoras da ideia de transformar a via e torná-la temática. “Nesses 24 anos algumas coisas mudaram, dentre elas o crescimento da participação feminina à frente de bares e restaurantes. Vejo cada vez mais mulheres atuando e se destacando nesse cenário. Nas reuniões do segmento conseguimos misturar a delicadeza e olhar feminino com a racionalidade masculina e temos atingido excelentes resultados nesse segmento. Tenho mulheres atuando em todos os setores do meu restaurante”. [[legacy_image_341153]] Há 30 anos alimentando com afetoSandra Baccarat é personalidade conhecida na gastronomia santista, com seu Barkanas sempre inovando. Ela diz não lembrar ao certo há quanto tempo esta nesse universo, mas que já são para lá de 30 anos. “Criava meus dois filhos e sentia falta de ganhar dinheiro. Comecei a fazer pão de mel. Abri a fábrica, as lojas, e as coisas foram crescendo. Mas chegou uma hora que percebi que aquilo não era o que eu queria fazer. Estava deixando de ter minha vida, de criar meus filhos, tudo estava errado. Fui trabalhar com festas. Comecei a fazer cursos de gastronomia. Fazia uma festinha aqui, outra ali. Até que as oportunidades foram surgindo, e fui abraçando e me apaixonando. A cozinha me deu tudo: respeito, autoestima, confiança. É difícil a gente entender que esse mundo é um mundo masculino. A gente percebe que todos os grandes chefes que aparecem são homens. São bem poucas mulheres, mas está mudando”. E ela, com razão, se orgulha de suas conquistas. “Recebo tantos elogios, tanta gente falando da comida e de sentimentos, de como o Barkanas é acolhedor. Tenho vontade de por uma faixa dizendo às pessoas, principalmente as mulheres: ‘nunca desistam dos seus sonhos. Levou a primeira porrada, levanta e vai embora’. A gente vem de uma geração na qual nossas mães e avós eram grandes chefes de cozinha. Comandavam a família em volta de um fogão. Então, vamos acreditar que a gente tem muito poder. Tenho comigo a certeza de que todas as mulheres são muito especiais”. [[legacy_image_341154]] Virada de chave e desafios diáriosAgnes Rotava é de São Paulo, mas morava em Salvador quando conheceu o marido, funcionário da Petrobras. Mudou-se para Santos quando ele foi transferido para cá. Começou a frequentar as aulas de flamenco do Centro Espanhol e ali surgiu a oportunidade de assumir o Restaurante Espanhol Sabores da Terra, uma virada de chave na vida da assistente social, que fazia residência em saúde mental na Unifesp. Apaixonada pela cozinha, se viu desafiada a empreender e aprender as dinâmicas de gerir um restaurante. “Há 8 anos embarquei nesta jornada. Como empresa, oferecemos serviços de alimentação fora do lar para alcançar ganhos financeiros e nos manter ativos no mercado. Para nossos clientes, somos um pequeno refúgio no almoço, oferecendo uma experiência reconfortante e revigorante. Para mim, significa a realização de um sonho. Atuo não só como gestora, mas como chef de cozinha, sem deixar de lado as responsabilidades de dona de casa, esposa e mãe que enfrento todos os dias”. Agnes fala que vive um dia de cada vez “respirando e seguindo em frente para construir minha identidade profissional em um ambiente dominado por homens, onde historicamente o papel feminino era visto como complementar e subordinado. No entanto, ao contrário do que muitos possam pensar, não sou uma exceção. Observamos cada vez mais mulheres reivindicando espaços que, equivocadamente, eram considerados exclusivos do gênero masculino”. [[legacy_image_341155]] Inspiração e transpiração diáriaA chef Katia Lopes concretizou o sonho de muitos chefs. Conseguiu abrir o seu restaurante, o Casa da Villa, nos moldes de um bistrô, onde cozinha diariamente pratos inspirados nos ingredientes que compra logo cedo na feira ou no mercado. “Meu envolvimento com a gastronomia foi amor à primeira vista”. Ela conta que em 1991 foi fazer uma viagem s à França, mas viu um anúncio de emprego como garçonete e se candidatou mesmo sem falar francês. “Fui contratada, decorei o menu e fiquei. Um dia precisei ajudar na cozinha e fiquei fascinada com o funcionamento das praças, tudo setorizado e organizado. Aí me bateu uma loucura e não quis sair mais”. Foi estudar Gastronomia e empreender. “É um universo desafiador. Um ambiente que vem de uma base masculina e que agora tem muitas mulheres maravilhosas no mundo e também no Brasil. Muitas que representam a nossa feminilidade na cozinha. É desafiador porque a mulher ainda continua trazendo com ela todas as outras atribuições, que é cuidar de uma outra vida, da casa, de ter outros cuidados. É natural da mulher e isso é o grande desafio pela cozinha ser um ambiente muito pesado, rude, que exige esforço físico. Ainda é um ambiente um tanto hostil para a mulher, mas que a gente está vencendo e trazendo muito mais graça a esse mundo” Com a equipe formada 90% por mulheres, ela tem agora um novo empreendimento, o Matias, um misto de bar com casa de eventos, que vem atender a mais um sonho de conseguir ter projetos temporários. [[legacy_image_341156]] Nova safra de talentosNascida em Santos, Beatriz Salles já cozinhava desde criança. A primeira formação universitária, em Jornalismo, foi a porta de entrada, já que durante a faculdade trabalhava para assessorias de Gastronomia. Quando finalmente assumiu sua paixão pela cozinha, decidiu se profissionalizar: entre o início da graduação e estágios, teve a oportunidade de trabalhar em restaurantes conceituados em São Paulo. Depois de um período fora do país, quando estudou Gastronomia na Espanha e trabalhou em um restaurante estrelado em Copenhagen, na Dinamarca, a pandemia a trouxe de volta à sua cidade natal. A partir disso, com a cabeça borbulhando e cheia de planos, iniciou, na cozinha da casa dos pais, o que hoje se transformou no Garni Lab, sua confeitaria e laboratório de ideias. Nesse trajeto entre vender por delivery e abrir uma portinha no Boqueirão, em Santos, o objetivo sempre foi ter um menu que se transforma constantemente, brincar com os sabores, criar com ingredientes sazonais enquanto aperfeiçoa a técnica. Hoje, aos 27 anos, se destaca entre os talentos da gastronomia da cidade. “Num ambiente tão masculino como a cozinha em geral e a cena gastronômica de Santos, é um privilégio muito grande poder representar e trabalhar ao lado de tantas mulheres potentes e capazes. Espero que isso só cresça — que todas se sintam livres em suas vozes e posições que ocupam, que tenham liberdade de ocupar cargos de liderança, que o assédio tão presente nas cozinhas seja cada vez mais exposto. É uma alegria viver e fazer parte desse processo e conscientização”. [[legacy_image_341157]] À frente e atrás do balcãoNascida e criada em São Paulo, Aline Araújo começou a trabalhar com bebidas alcoólicas em 2008, ainda na Capital, na então maior importadora de cervejas do Brasil e chegou a liderar a área de Marketing da empresa. Concluiu seu MBA, se formou sommelière de cervejas e viajou o mundo. Conheceu o marido santista, Marcelo Malanconi e em 2017, já morando em Santos, ela assumiu um projeto de distribuição de cervejas da importadora. Vendas, treinamentos e eventos diversos, como um ousado Oktoberfest no Centro de Santos, foram desenhados por ela, a fim de fomentar a cena cervejeira na Cidade. Aline assinou uma coluna sobre o assunto aqui no Boa Mesa. Também se dedicou a estudar outras bebidas. Aline e o marido Marcelo inaugurariam em 2018, o projeto Chicago Night Club, onde atendiam um seleto grupo de clientes. O sucesso fez surgir a ideia de montar um espaço fixo e após muita pesquisa nasceu o Hideout Speakeasy, inspirado nos bares clandestinos da época da lei seca nos EUA e, depois, o Hideout Fizz, que tem coquetelaria leve e divertida. “Fico feliz que o cenário de uma mulher no bar, seja na gestão e liderança dele, seja fazendo um drinque ou simplesmente sentada no balcão para beber seu coquetel sozinha, sem aborrecimentos, sejam cenas que se tornam rotineiras. Sinto-me honrada e orgulhosa em fazer parte desse movimento que se esforça para que a presença feminina nesses espaços seja valorizada e respeitada e vou lutar sempre para que isso seja uma constante”. [[legacy_image_341158]] Nunca é tarde para mudarVanessa Andrade tem na família seu repertório de memórias afetivas e culinárias. Ela é, nessa página, a que entrou mais recentemente no universo da gastronomia profissional quando deu uma guinada na vida. Há quase 2 anos, ela abriu o Gaia Gastronomia, no Boqueirão, em Santos, onde dá vazão ao amor pelo alimento. Antes, Vanessa atuava em uma bem sucedida carreira no Porto de Santos. “Eu colocava meu salto e meu batom vermelho junto com meu capacete e meu colete e ía para o trabalho. Foi um período de muitos desafios e provações. Tive muita resiliência e superação para vencer os obstáculos e prosperar em uma carreira com um ambiente tão masculino”. Ela conta que gostava do que fazia, mas que chegou um momento que a saúde mental exigiu uma mudança. “Eu ouvia aquela musiquinha do Fantástico e começava a tremer. Desenvolvi um quadro de ansiedade e depressão. A gente tem jornada dupla, tripla, com as preocupações e obrigações em casa, com a família, e as pressões no trabalho. Ser mulher não é fácil. E a gente tem que se acolher, se ajudar. Por isso criei um dia especial no Gaia, as quintas das mulheres, com bate-papo e temas que são voltados para nós.Sempre gostei de cozinhar, por conta das recordações da minha avó, almoços aos domingos naquela mesa enorme. A comida faz com que você crie memórias, fortalece laços, te traz felicidade. É sinônimo de afeto. Fui estudar sobre tudo que abrange restaurantes e peguei todo o meu conhecimento e transformei, Tudo que eu trouxe de experiência em processo, procedimentos transformei para área de gastronomia. O estudo abre caminhos e te leva a novos horizontes”