[[legacy_image_332758]] Sempre que vou assistir a uma cinebiografia - mesmo não querendo - acabo comparando o filme que assisti com uma produção que eu gostaria de ter assistido, o que está longe de ser justo. Mas no caso de Maestro, filme da Netflix que tem em Bradley Cooper seu diretor e também protagonista do compositor, regente, arranjador e uma série de outras funções ligadas à música, esta é uma questão importante demais para ser ignorada. Afinal, é a biografia de um astro de primeira grandeza da música, o primeiro grande maestro americano, o sujeito que criou West Side Story, que exalava paixão em seu jeito de reger e que, por isso, levou muitas crianças a sonhar em ser maestro (quem nunca regeu, escondido, alguma música clássica de que gosta muito?). Maestro mostra de forma muito discreta - envergonhada, até - sua criação musical, com exceção da longa cena, de seis minutos, em que rege a Sinfônica de Londres na Segunda Sinfonia de Mahler. E é a música um dos elementos mais importantes de sua trajetória, impossível de ser compreendida sem ela. O filme, na verdade, foca em um aspecto da vida de Bernstein que, para o bem ou para o mal, tem íntima ligação com a música: seu casamento com a atriz Felicia Montealegre, em crise constante graças às traições muito pouco discretas do maestro. É a relação do casal que pontua os diversos episódios que formam a história e leva a questionamentos do tipo “por que ela continua com ele?”. Bradley Cooper diz que ensaiou por seis anos a regência e os trejeitos de Bernstein para fazer o filme. Acaba que o que chama de fato a atenção é sua prótese de nariz. Sua interpretação, que vai concorrer ao Oscar no dia 10 de março, não é relevante. Neste aspecto, o filme é muito mais de Carey Mulighan, que faz a esposa e dá um show - aí sim - digno de prêmios! Outros pontos positivos são figurinos, fotografia (que alterna entre cores e preto e branco) e uma característica que adorei: quando o filme está mostrando uma cena ocorrida nos anos 40, tudo é construído como se fosse um filme feito naquela época. Se a cena é dos anos 60, a sensação é de assistir a um filme dos anos 60. E segue assim em todas as décadas, algo que também vemos em outro concorrente ao Oscar deste ano, Os Rejeitados. Destaque ainda para os produtores do filme, ninguém menos que os gênios Martin Scorsese e Steven Spielberg. Este último, aliás, iria dirigir a produção, mas preferiu rodar o musical West Side Story, lançado em 2021 e criado pelo próprio Bernstein. Foi Spielberg que, depois de assistir a uma cena de Nasce uma Estrela, escolheu Cooper para a direção. É um filme ruim? Nem de longe. Cumpre seu papel de biografar um gênio? Também não. Reduzir Bernstein à sua sexualidade é um erro que pode custar justamente o que motivou o filme: os prêmios. Tanto Cooper quanto a Netflix são obcecados pelo Oscar. E, entre acertos e erros, Maestro concorre a sete estatuetas: Filme, Atriz, Ator, Roteiro Original, Fotografia, Maquiagem e Som. Se tivesse que apostar, apontaria apenas Carey como concorrente de peso. Um filme bom, mas que podia ser infinitamente melhor.