[[legacy_image_221996]] “Mas você está triste ou cansada?” Do outro lado da chamada de vídeo, meu amigo questionava o meu desânimo enquanto eu mexia com a colher a limonada – sem açúcar, para o suco não ficar no fundo. Limonadas me ajudam a enfrentar náuseas que surgem por causa de um problema no pâncreas que descobri recentemente. Fazer do limão uma limonada nunca fez tanto sentido como agora. “Então? Tristeza ou cansaço? Eu também ficaria cansado de tantos exames. E, por mais que se sentir doente mexa com a gente emocionalmente, além de fisicamente, talvez você esteja mais sem paciência mesmo”, disse ele. Fazia muito sentido, assim como transformar limão em limonada. Era mais mau humor do que melancolia. Inclusive porque realmente me sinto mais cansada do que o normal em alguns dias, consequência do meu pâncreas não produzir todas as enzimas que precisa para o organismo funcionar bem. Mau humor e cansaço identificados com sucesso. E verbalizados com a ajuda de um amigo sensato, que não dá espaço para que mergulhe em dramas desnecessários. Todo mundo precisa de amigos assim, que nos ensinam um certo letramento emocional. Na Pedagogia, letramento emocional está em alta. Em muitas escolas, os pequenos estão aprendendo a “ler” o mundo emocionalmente, seus contextos, e refletir sobre as emoções que tudo isso causa. A expressão de tais emoções pode ser escrita, desenhada, falada, em um exercício ou numa brincadeira. Nas universidades, fala-se muito sobre habilidades socioemocionais no mesmo grau de importância das habilidades técnicas para o trabalho. Saber escutar, empatia, respeito pelo outro, trabalhar coletivamente e consciência social são alguns dos pontos importantes para o profissional que chega hoje ao mercado. A verdade é que as emoções nos guiam com muito mais frequência do que a racionalidade. Nem tudo pode ser decidido pelos impulsos e pulsos do coração, claro. Mas ouvi-lo torna as decisões racionais mais coerentes, certeiras e de acordo com nossa essência. Na hora em que pensei em voz alta, junto com meu amigo, que eu só precisava ficar um pouco em casa, vendo séries e seguindo a dieta recomendada para meu pâncreas desinflamar o quanto antes, a sensação mudou. O cansaço continuava ali, mas com olhar para a solução, não para deixar a tristeza tomar conta. A gente precisa entender o que sente para dimensionar a realidade. Falando em séries, ando apaixonada por doramas, produções de países asiáticos. No meu caso, os doramas coreanos (envelopados em leveza e até inocência, mesmo ao tratar de assuntos sérios). Apesar de cultura tão diferente da nossa, as emoções universais estão lá: medo, raiva, alegria, afeto, tristeza, repulsa. A gente se reconhece no personagem de um lugar tão distante. O mesmo já aconteceu assistindo a um filme italiano ou francês ou turco ou argentino, entre tantos outros. Ninguém escapa das emoções. Não importa em que ponto do planeta estejamos. Melhor se aprendermos a reconhecer quais são elas em cada momento da vida e lidar com as bagunças que causam sem pesar demais as suas presenças. É traço de humanidade, daqueles fundamentais e que tanto nos aproximam.