[[legacy_image_230699]] A jornalista santista Adriana Carranca foi considerada em 2016 uma das dez profissionais da área mais admiradas do País. Tornou-se especialista em cobertura internacional, passando por Haiti, Síria, Paquistão, Afeganistão e Iraque, entre outros. Em 2014, recebeu o Prêmio Líbero Badaró de Jornalismo, na categoria Cobertura Internacional. Lançou, em 2015, o livro Malala, a menina que queria ir para a escola, sobre a pessoa mais jovem a receber um Nobel da Paz. Agora, lança o também infanto-juvenil Entre Sonhos e Dragões, que traz meninas e mulheres afegãs. “O livro surgiu da minha própria surpresa ao encontrar no Afeganistão meninas e mulheres tão fortes, corajosas, desafiadoras, determinadas, talentosas e decididas a mudar o próprio país e o mundo”. Ela fala sobre essas coberturas, especialmente ao se deparar com grandes mulheres por aí. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Como surgiu a ideia deste livro?Quando falamos de Afeganistão, imediatamente nos vêm à mente mulheres sem rosto ou identidade, escondidas sob a burca e oprimidas. Embora a opressão seja uma realidade vivida pelas afegãs, elas não sofrem caladas com a opressão, elas enfrentam. Como escrevo no livro, ser mulher é lutar e vencer todos os dias, seja para simplesmente existir ou para realizar algo extraordinário, como o espaço conquistado por Sadaf no ringue, a arte de Shamsia e a música de Meena. E essa condição feminina é, em maior ou menor escala, universal. Como foi o processo de escrita dele?Conheci as meninas afegãs em diferentes viagens que fiz como repórter ao Afeganistão – Shamsia, em 2011; Sadaf, em 2012; e depois Meena, a mais jovem entre elas. Como costumo fazer com as fontes, mantive contato com elas e acompanhei suas trajetórias ao longo dos anos. Quando entrevistei Shamsia a primeira vez, ela fazia sua exposição coletiva inaugural de artes, em um centro cultural mantido pelo governo da França. Nós nos encontramos outras vezes, e ela me apresentou a seus amigos artistas, um grupo talentoso e considerado uma grande promessa no país para recuperar a tradição artística afegã. Eu me lembro de ficar fascinada por encontrar arte, beleza e delicadeza num país arrasado por conflitos e ainda em guerra. Já Sadaf havia acabado de voltar de uma competição internacional e me chamou a atenção por ser tão destemida e, claramente, usar o boxe para abrir e ocupar espaços das meninas dentro e fora do ringue. Era uma lutadora fenomenal, no esporte e na vida. Meena é uma paixão. Até hoje, suas inteligência, coragem e determinação me comovem. Em um dia de agosto, me contou que havia sigo aceita para estudar em uma prestigiada escola de música de Michigan, nos EUA, e com bolsa de estudos. Meena estava radicante com a notícia! Uma semana depois, os talebans retomaram o poder e ela já não podia sair de casa. Chorei ao perceber o seu desespero. Ela só conseguiu fugir um mês depois. Aos 15 anos, atravessou sozinha a fronteira deixando tudo para trás. Quando percebeu esse olhar às crises humanitárias, principalmente na questão das condições das mulheres?Foi em uma viagem ao Egito, a convite de uma amiga. Cursávamos o mestrado em Políticas Sociais e Desenvolvimento na London School of Economics e, nas férias da primavera, ela pediu que a ajudasse a escolher o futuro marido entre três pretendentes aprovados por seus pais. Éramos quatro: uma egípcia muçulmana, uma filipina cristã protestante, uma canadense de origem judaica e eu, uma brasileira agnóstica com todo o seu sincretismo religioso típico do país. Eu pensei: essa viagem não vai dar certo! Então, percebi já no Cairo que, entre nós, não havia muros ou conflitos, apesar das nossas diferenças de origem, nacionalidade, cultura, língua, etnia e crenças. Ali, comecei a refletir sobre como nós jornalistas, mesmo que inconscientemente, muitas vezes acabamos por destacar as diferenças entre povos. Em campo, percebo que há muito mais do que nos une como humanidade do que nos aparta. Como se vê sendo uma jornalista brasileira tendo esse olhar estrangeiro?Quando comecei a cobrir conflitos e outros assuntos internacionais, eu me cobrava muito por tratar de questões aparentemente distantes, enquanto o Brasil enfrenta tantos problemas. Então, em uma conversa com Matinas Suzuki, diretor da Companhia das Letras, ele me disse: “Conhecer as histórias do mundo amplia nossos horizontes e nos ajuda a compreender os próprios problemas”. Ele tem razão. Hoje, enxergo no Brasil muito do que antes passava despercebido, do que consideramos imutável, embora não seja, dos crimes que normalizamos, como os assassinatos, o racismo estrutural, as várias formas de violência contra a mulher, o genocídio indígena, a condição da maioria das crianças que muitos já não enxergam nos faróis. Trazendo para o tema do livro, tenho refletido muito sobre quantos talentos como Meena, Shamsia e Sadaf, quanta riqueza cultural, quanto capital humano o nosso país perde nas periferias das grandes cidades, quanto conhecimento ancestral, quanta história, quanto de nós mesmos se perde no massacre cotidiano de tantos brasileiros. O papel das jornalistas mulheres contribui para refletir as condições femininas nessas áreas de conflitos?Penso que seja mais natural para as jornalistas mulheres se enxergarem no papel das meninas e mulheres que entrevistamos. Mas acho também necessário o olhar “estrangeiro”, digamos assim, do qual falávamos há pouco, sobre todos os temas. Acho que a maior contribuição que podemos dar ao jornalismo e à informação, um direito humano, é representatividade. Uma redação, assim como os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), que não tenha em seus quadros um número aproximado de mulheres, homens, não binários, indígenas, brancos, negros, pardos, jovens, velhos etc. equivalente ao Censo da população não representa de fato os brasileiros e a realidade do Brasil. Como enxergou, ao longo desses últimos anos, as condições das mulheres aqui no Brasil?Os números mostram que houve aumento da violência contra a mulher no Governo Bolsonaro. É cedo para avaliarmos as causas. A pandemia pode ter sido um fator. Mas os números também demonstram que Bolsonaro destinou menos recursos a políticas para mulheres, para o enfrentamento da violência contra a mulher. A execução orçamentária foi baixa. Ele vetou propostas como a que obrigava profissionais de saúde a registrar e comunicar à polícia indícios de violência. E sua política armamentista representa um risco maior às mulheres. Mas as mulheres não se deixaram abater. Neste ano, a bancada feminina no Senado conseguiu vitórias importantes, como o combate à violência doméstica, saúde e incentivo ao empreendedorismo feminino. É um exemplo da importância de um legislativo representativo. Como vê o trabalho das jornalistas que fazem essas coberturas pelo mundo?Tê-las é tão essencial quanto o olhar “estrangeiro” e, talvez, mais importante. Fiz questão de convidar para ilustrar o meu novo livro uma talentosa ilustradora afegã. Infelizmente, por ainda viver no Afeganistão sob domínio do Taleban, ela assina o livro usando apenas as iniciais. Espero poder revelar sua identidade em breve, assim que ela estiver em segurança. Em todo o mundo, as jornalistas correm riscos maiores apenas por serem mulheres. Como disse, ser mulher é lutar e vencer o tempo todo.