[[legacy_image_259210]] Mais de 10 milhões de jovens brasileiros sofrem os impactos da pandemia. O médico hebiatra Maurício de Souza Lima, de São Paulo, responde questões atuais, que, muitas vezes, tiram o sono dos pais. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O médico hebiatra é o clínico geral do adolescente?Exatamente. Ele atende quem tem a partir de 10 anos, já que, segundo a Organização Mundial de Saúde, a adolescência começa a partir dessa idade. Para ser médico hebiatra, antes é preciso fazer residência em pediatria e só depois em hebiatria. Eu também sou formado em psicologia. Quais são as principais queixas dos pacientes e dos seus pais?Têm a ver principalmente com a estatura do adolescente, peso ou situações comuns como as mudanças no corpo. Há quem entra cedo nessa fase, os chamados maturadores adiantados, e quem demora mais, os maturadores tardios. Todos estão dentro da normalidade. Mas essa diferença, às vezes, preocupa o jovem e os pais. As consultas também envolvem questões comportamentais?Sim, porque o jovem, durante a transição entre a infância e o mundo adulto, acaba se deparando com novas vontades, novos prazeres e, consequentemente, com sentimentos como os de onipotência e invulnerabilidade, já que o adolescente acha que sabe tudo e costuma ter a sensação de que nada de mal vai acontecer com ele. Por isso, acaba se arriscando mais. O que mais afeta a saúde do adolescente: alimentação, sono, estresse?Sem dúvida, o sono, porque a falta dele acaba prejudicando várias funções do organismo, como a memória, o sistema imunológico e a atenção. Nós, seres humanos, fomos feitos para dormir, em média, oito horas por noite. E a gente sabe que nunca na história da humanidade o sono foi tão negligenciado. Hoje, as pessoas dormem pouco, porque levam o celular para a cama e, até quando acordam durante a noite, pegam o aparelho. Qualquer tela, inclusive jogos e filmes, nos estimula e nos deixa mais ligados à noite. E muita gente tem sono picado. Vários jovens chegam da escola e dormem de duas a quatro horas à tarde, porque ficaram acordados até de madrugada. Aí, eles não terão sono à noite. Isso pode gerar forte estresse físico e emocional. A alimentação também é um aspecto que precisa ser melhorado no jovem? Sim, pois é muito importante nesse período de crescimento rápido. Lembrando que a puberdade é a única fase depois do nascimento em que a pessoa acelera a velocidade do crescimento. Ao contrário dos bebês, que crescem de forma desacelerada. Por isso, a alimentação equilibrada é fundamental para que o jovem aproveite o chamado estirão. Arroz, feijão, carnes, frango, peixes, frutas, legumes e verduras devem ser consumidos para que o crescimento se processe. Tudo isso é avaliado na consulta?Analiso a parte física (ritmo de crescimento, pressão, colesterol, triglicérides e doenças hereditárias) e a alimentação, o sono, os exercícios físicos e a forma como o paciente lida com as mudanças típicas da adolescência. Quais são as características de temperamento marcantes da adolescência?Temos perfis diferentes de adolescente. O mais quieto, tímido, e o mais popular, que gosta muito de festas. Nesse segundo caso, principalmente, é importante que os pais fiquem atentos a questões que envolvem bebida, fumo, cigarro eletrônico. Eu me deparo com pacientes bem jovens e já com problemas com drogas ilícitas. A maconha, por exemplo, acaba tendo um teor de THC (tetra-hidrocanabidiol, que é o princípio ativo da maconha) muito mais concentrado do que no passado e isso traz mais riscos, ou seja, aumenta a chance de problemas, especialmente se consumida no período em que o cérebro está se formando, que vai até os 22, 23 anos. Há uma parte do cérebro, o córtex pré-frontal, que se exposta ao THC em uma idade em que essas células estão fazendo novas conexões apresenta chance maior de ter algum problema nessa construção. E principalmente quando a pessoa tem algum familiar com psicoses, esquizofrenia e depressões intensas, a droga pode ser um gatilho. Que outras drogas estão sendo consumidas pelos jovens?Temos as sintéticas como o MD, o ecstasy e o loló, que voltou com força impressionante, além de algumas substâncias que alteram a consciência, como os cogumelos, que contêm potencial alucinógeno. O fentanil também é muito perigoso. Nos EUA, já é considerado um problema de saúde pública. Trata-se de um anestésico altamente viciante, que causa certa euforia. É mais forte até do que a heroína e qualquer outra droga. Tem muita gente nos Estados Unidos morrendo por causa do fentanil. A pandemia deixou marcas nos adolescentes difíceis de tratar? Sim, alguns ficaram mais vulneráveis, mais quietos e propensos à depressão. Mas outros lidaram bem com o isolamento e até passaram a estudar mais do que na escola presencial. No geral, os déficits maiores ficaram por conta do aprendizado e do convívio social. Se por um lado muitos jovens ficaram viciados em tablets e celulares, outros, com a volta à rotina normal, não param em casa. Como os pais podem ajudar nesses extremos?Conversando, limitando… E esse equilíbrio não envolve apenas as saídas ou o tempo gasto no celular, no tablet e no computador, mas também as horas de sono e a qualidade da alimentação. Hoje, a gente vive em um mundo de exageros e de falta de equilíbrio. Atualmente, há ainda mais preocupação com a segurança dos jovens, mas, ao mesmo tempo, eles querem autonomia para ir e vir. Como deve ser feita a orientação em casa? Cada casa tem as suas regras. Acho interessante quando os pais preferem levar e buscar os filhos, inclusive, para avaliar como eles estão quando saem das festas. Pais que deixam que os filhos durmam muitas vezes nas casas dos amigos – ou que permitem que eles andem de Uber ou táxi e estão dormindo quando chegam – acabam facilitando que os jovens aproveitem esses “espaços” para experimentar coisas novas, transgredir. Mas não existe uma receita de bolo. O principal é que cada família conte com suas regras para que os pais possam acompanhar os filhos. Em algumas resenhas, rolam bebidas, cigarro eletrônico e até drogas. Como podemos blindar o adolescente de riscos? Conversando com ele. E faço isso também nas consultas. É importante que os pais saibam com quem os filhos andam, onde estão e que horas voltam, e como retornam para casa. Deve-se saber se o filho está ultrapassando os limites da casa e o que fazer caso ele não cumpra o que foi combinado. Tudo isso requer muita conversa. O adolescente sempre acha que sabe se cuidar, mas, às vezes, está enganado e pega caminhos inadequados. Qual tom usar na hora da limitação? Os pais devem estabelecer regras e avisar o filho sobre elas. Têm de dar amor, mas também é fundamental a imposição de limites. Essa é a função dos pais. E deixe claro que pai e mãe não limitam porque são chatos, mas, sim, porque essa é a forma de protegerem o filho dos perigos. Vale mostrar exemplos, inclusive, de fatos já ocorridos em que as pessoas acabaram sofrendo com problemas físicos e emocionais por acharem que dariam conta das situações. Não precisa ser invasivo, mas jamais se distancie do filho. Bebidas alcoólicas têm efeito devastador no organismo do adolescente? Sim, e eu explico isso para ele durante a consulta. O corpo dele está se formando! O fígado e os rins de um adolescente ainda estão amadurecendo e isso deve ser feito da forma mais saudável possível. As marcas desses excessos ficam no corpo e podem não aparecer logo de cara. O cigarro eletrônico também afeta bastante a saúde, não é mesmo? Ele vicia, porque contém nicotina. Vários pacientes estão tendo dificuldade para se livrar dele. E os efeitos nocivos vão desde irritação na garganta até formação de muco, diminuição da capacidade física, do fôlego etc.