[[legacy_image_172747]] Isabel é minha filha que não veio. Se você acompanha meus textos por aqui, sabe quem ela é. A menina que deu graça, como personagem principal, a algumas das crônicas que escrevi. Às vezes, gosto de imaginar o que estaria vivendo. Como estaria vivendo. Aí, escrevo mais um pedaço de sua (possível) história. Isabel está guardada, por minhas ancestrais e pelas deusas que me guiam, em um lugar que ainda não acesso, para vir em outra vida. Porque nessa vida ela não foi desejada. Isabel não veio, nunca foi concebida, porque não cabia nas escolhas que precisei, e quis, fazer. Nunca tive o sonho da gravidez, da barriga, do amamentar, do educar um serzinho que é parte da expressão daqueles que são sua origem. O tempo passou e tais vontades permanecem sem sinal. Também sempre foi claro na minha cabeça, desde muito cedo, que não importaria a idade. Se o desejo da maternidade viesse (se ainda vier), a adoção é uma possibilidade linda. Com as alegrias e os desafios que são parte de qualquer processo de tornar-se mãe ou pai. Não há tristeza ou pesar nesse compartilhar. É algo bem resolvido na emoção e na razão. Mas o assunto pode machucar. Especialmente em um dia mais vulnerável. Para muitos, a não maternidade me coloca num lugar de adjetivos nada generosos: fria, calculista, egoísta, irresponsável, individualista, hedonista (desse até que eu gosto) e por aí vai. Ah, sim. Automaticamente, significa que detesto crianças. Confesso não ter habilidade com elas. O que não quer dizer que não as considere fofas, divertidas e que são o pontinho de luz mais brilhante de suas famílias. Há quem acredite que a não maternidade é sinal de que meu valor como mulher é menor. Como se a máxima do feminino fosse a procriação. Para não virar revanche, nem vou destrinchar o detalhe de que tem gente que usa filho como fantoche, brinquedo, moeda de troca em relações rasas. Que filho figura só como parte do pacote de sucesso que se espera aparentar. E, assim, não existe amor. Apesar de tudo isso e como eu disse, a condição é minha escolha. Para outras mulheres, não. É sofrimento para quem esperava muito embalar o próprio bebê no colo e não conseguiu. Por motivos de saúde, de grana, após inúmeras tentativas naturais ou médicas. Depois de perdas... Imagine agora, mais um almoço de Dia das Mães chegando e ouvir a infeliz pergunta: “E quando vem o seu?” Não é só indelicado. É estúpido. Para amigas minhas que tentavam há anos engravidar, perguntas assim foram gatilhos para a depressão. Não seja você a pessoa estúpida do almoço de Dia das Mães ou de qualquer outro momento de intromissão no maternar de uma mulher. E ser mãe é superlativo no espalhar. Está no meu cotidiano com minhas filhotas de patinhas. Na minha relação de amor maior com meu sobrinho, também meu afilhado. Em certas conversas e acolhimentos com minhas alunas e meus alunos. E quem não vira um pouco mãe dos próprios pais com a idade? A maternidade é maior em beleza e significado do que as caixinhas sociais restritas que insistimos em determinar. Talvez seja parte do meu caminho ajudar nessa compreensão. Se for, Isabel já até terá de mim motivo para se orgulhar.