Apenas para produzir o papel de presente usado globalmente no Natal, são consumidos 30 milhões de árvores e 100 bilhões de litros de água (Adobe Stock) No mês de dezembro, nossas casas se transformam: luzes piscam, presentes se acumulam sob a árvore e a mesa é preparada para a ceia. É a época da generosidade, das reuniões e… do lixo. Sim, do lixo. Você já reparou na quantidade de embalagens, restos de comida e objetos descartados depois do Natal? É um momento de celebração, mas também de consumo desenfreado que deixa marcas no planeta. Estima-se que, no Brasil, a geração de resíduos sólidos urbanos aumente até 30% durante as festas de fim de ano, segundo dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe). Isso equivale a cerca de 2 milhões de toneladas adicionais de lixo só no mês de dezembro. Na Região Metropolitana da Baixada Santista, esse aumento na geração de resíduos pode saltar de 2.500 para mais de 4 mil toneladas diárias, segundo o Plano Regional de Gestão de Resíduos. No mundo, o impacto é ainda mais alarmante. Um estudo da Universidade Stanford revela que o desperdício durante o Natal nos Estados Unidos gera emissões de gases equivalentes ao uso de 500 mil carros rodando o ano inteiro. E isso não inclui os danos causados pelo descarte inadequado de decorações, embalagens e outros resíduos sazonais. Para produzir todo o papel de presente usado globalmente nessa época, são consumidos 30 milhões de árvores e 100 bilhões de litros de água — o suficiente para abastecer uma cidade como São Paulo por mais de dois meses. E o glitter, tão popular em decorações e cartões, é uma fonte de microplásticos que contribui para a contaminação de 20% dos ecossistemas marinhos, de acordo com a Marine Conservation Society. Biodegradável? Diante de tanta poluição, muitas pessoas procuram alternativas “mais verdes”. É aí que entra o famoso termo “biodegradável”, presente em rótulos de embalagens, talheres descartáveis e até sacolas de compras. A ideia é sedutora: um material que desaparece sozinho e não deixa rastros. Mas será que é tão simples assim? Segundo a professora Ana Beatriz Leite, especialista em sustentabilidade da USP, biodegradável não significa inofensivo. “Esses materiais precisam de condições específicas para se decompor, como altas temperaturas ou oxigênio abundante, que não existem em aterros sanitários comuns.” Em outras palavras, o biodegradável que vai para o lixo comum pode levar anos, ou até décadas, para se decompor. Além disso, há o risco de greenwashing, termo usado para descrever práticas de marketing que exageram ou distorcem as credenciais ambientais de um produto. Um estudo do Instituto Akatu revelou que cerca de 40% dos consumidores brasileiros compram produtos pensando no impacto ambiental, mas muitos acabam sendo influenciados por embalagens com mensagens confusas ou enganosas. Por essas e outras, enquanto você organiza os enfeites e os presentes deste ano, que tal pensar no impacto que cada escolha pode ter? Às vezes, a mudança começa com algo simples, como reaproveitar o papel de presente do ano passado ou evitar produtos que prometem mais do que podem cumprir. Porque, no final, o verdadeiro espírito natalino é cuidar uns dos outros — e isso inclui o planeta. Alternativa ao plástico convencional Nos últimos anos, os bioplásticos ganharam destaque como substitutos dos plásticos convencionais. Eles são feitos a partir de biomassa (como amido de milho, cana-de-açúcar ou resíduos agrícolas) e prometem ser menos prejudiciais ao meio ambiente. No entanto, estudos recentes apontam que os bioplásticos não são uma solução mágica para a crise do lixo. De acordo com um recente estudo, apenas 30% dos bioplásticos disponíveis no mercado são efetivamente biodegradáveis. Muitos deles compartilham características químicas com os plásticos tradicionais e, quando descartados de forma inadequada, podem contribuir para a poluição por microplásticos. “O desafio dos bioplásticos é que, apesar de serem menos dependentes de combustíveis fósseis, sua biodegradabilidade depende de condições específicas que raramente estão disponíveis no ambiente natural”, explica o pesquisador Mark Miodownik, da University College London. Isso significa que, em vez de desaparecerem naturalmente, muitos desses materiais acabam acumulados em aterros ou nos oceanos, como os plásticos convencionais. Inovações Embora os bioplásticos apresentem desafios, avanços tecnológicos têm trazido inovações promissoras. Embalagens feitas a partir de resíduos agrícolas, como o bagaço de cana-de-açúcar, têm mostrado potencial, especialmente aquelas certificadas para compostagem doméstica. Essas embalagens podem se decompor em até 90 dias em composteiras caseiras, evitando a dependência de sistemas industriais. Outro exemplo são os bioplásticos de segunda geração, que utilizam resíduos orgânicos como matéria-prima, reduzindo a competição com culturas alimentares. Um estudo do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) publicado em 2023 mostrou que esses bioplásticos podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 70% comparados aos plásticos convencionais. Além disso, startups brasileiras como a GreenPack têm desenvolvido produtos biodegradáveis compostáveis que já são utilizados em eventos de grande porte, mostrando que inovação local também pode fazer a diferença.