[[legacy_image_199738]] Olá, Marcelo Rebelo de Sousa. Sou uma cronista brasileira e era uma admiradora sua. Era. Como você deve saber, em nosso idioma, as crônicas (ou crónicas) têm como proposta falar do cotidiano. Por isso, vou falar do cotidiano que vivo e que vejo meus conterrâneos viverem nesses dois anos que estou em terras lusitanas. Sim, Marcelo, nós gostamos da segurança, das belezas naturais, da boa disposição e da alegria dos portugueses. Ao menos dos que nos tratam com respeito. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Mas preciso te dizer uma coisa, para que você desperte desse possível mergulho insano no universo do “tudo pela diplomacia”: não, casos de xenofobia não ocorrem apenas em alguns setores. Eu não conheço um só brasileiro que viva aqui e ainda permaneça intocado por ela. Nenhum. Ela se esgueira, entra por algum aspecto da vida e se alastra pelos outros: logo de cara, no (infelizmente) famoso serviço de imigração português, na universidade, no trabalho e até mesmo nos aplicativos de relacionamento. Ela não se dá ao trabalho de ser velada. Não que a velada também não ocorra. Ambas estão sempre a postos para agir. A atriz brasileira ganhou notoriedade, Marcelo, e você não teve como evitar falar do caso dela na TV. Mas, ao invés de oferecer apoio aos imigrantes que atualmente movem o seu país, e chamar à realidade os seus conterrâneos, guiando-os com clareza e bom senso, como é de responsabilidade de todo verdadeiro líder, você preferiu minimizar, dizer que “há tiques e toques racistas e xenófobos, mas não há alergia a brasileiros...” Poxa, Marcelo, você errou feio. Vou te contar o caso mais light que eu experienciei. Na fila de uma loja de departamentos, na qual eu conversava descontraidamente numa tarde de sábado, tive que ouvir uma portuguesa perguntar ao meu namorado português, desrespeitando completamente a minha presença e com ar de deboche: “afinal, o que é que essas brasileiras têm?” Ele iniciou uma discussão para me defender, mas a meu pedido, encerrou. Sorri para ela o meu sorriso mais bonito, dei-lhe as costas, segurei a mão dele bem firme e, após pagar, caminhei lindamente, de compras nas mãos, sabendo que, na verdade, ela estava se rasgando de ódio dos meus euros ganhos honestamente e do viço na minha pele. Porque como bem disse a Taís Araújo, uma outra atriz brasileira já talhada pelo preconceito: a gente precisa escolher as estratégias para as batalhas, senão drena toda nossa energia da maneira errada numa guerra da qual nem queríamos participar. E olha, Marcelo, nós podemos gritar e esbravejar para nos defender, sim. Mas isso não elimina o brilhantismo de nossas mentes. Nossa imensidão fez com que entendêssemos muito cedo que precisamos nos unir aos nossos pares na luta para sermos mais fortes. Com firmeza, com inteligência e uma série de qualidades que nos fazem conquistar cada vez mais espaços, não só em trabalhos que não requerem escolaridade, como muitos dos seus patrícios pensam, mas também em trabalhos que exigem qualificação profissional e preparo intelectual. Esses nossos anos e anos de estudos, podem, talvez, alimentar o despeito de alguns. Mas o maduro é que cada um trate dos seus demônios. Sempre vai existir a possibilidade de terapia para ajudar no processo. Naquela fala, você perdeu nossa admiração, Marcelo. E perdeu muito. Perdemos nós também, talvez muito mais que você, neste momento. Mas sabe, é só neste momento mesmo. Porque você está presidente. E nós somos brasileiros. E já somos dezenas de iniciativas contra a xenofobia. Nós não nos calaremos.