[[legacy_image_223498]] Não sabemos como aconteceu, se foi um acidente ou um ato deliberado. Nem tampouco o que motivou isso. Aliás, é muito provável que jamais saberemos como aquela ideia surgiu. Foi há muito tempo, há quase 800 mil anos, o dia em que começamos a cozinhar nossos alimentos e a moldar o que somos hoje. Mais do que aprender a dominar o fogo, o ato de preparar os alimentos trouxe o que muitos pesquisadores chamam de comensalidade – o ato de se reunir. É a partir daí que vão se estabelecendo regras e rituais. Dessa forma, a cozinha, o primeiro laboratório da humanidade, trouxe consigo um outro tipo de convívio social. Como disse o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, esse momento significou a passagem do ser humano da condição biológica para a social. Pouco a pouco, o alimento foi ganhando outro significado, permitindo aos grupos acentuarem as individualidades. Há quem afirme, inclusive, que desse processo surgem as religiões. Deidades das mais diversas origens tomaram forma a partir de cerimônias ligadas à escolha de determinado produto e à forma como era preparado, assim como a escassez ou abundância desse gênero alimentício. Enquanto catadores-coletores, o ato de dividir o alimento era disperso e, muitas vezes, inexistente. A cozinha, mesmo a primitiva, acentuou consigo não apenas a divisão, mas também a reciprocidade, a troca e o fortalecimento dos laços. A hierarquia dentro do grupo também se transforma com isso. Surge, entre outros simbolismos, o ato de esperar a sua vez, trazendo um novo significado para a segurança que envolve a coletividade. Comer se traduziu em algo que, com o tempo, foi se dissociando do mero ato de consumir calorias. O entorno do fogo e, posteriormente, a mesa tornaram-se o centro de decisões. A família é resultado desse processo. Uma das mais antigas origens dessa palavra nos remete ao sânscrito. Ao termo mauss, que significa casa, lar, que, em latim, lare é a parte da cozinha onde se acende o fogo. Curiosamente, ao longo desse processo de especialização, os seres humanos definiram, com base nos insumos à disposição, as suas características de individualidade, as quais, com o tempo, se transformaram em argumentos de posse, territorialidade e conflitos. Toda essa longa história fez com que os nossos corpos fossem se desenvolvendo para maximizar a quantidade de energia obtida por meio de nosso alimento. Um processo, aliás, ainda em andamento. Richard Wrangham, primatologista e antropólogo da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, autor do livro Pegando Fogo: Como Cozinhar Nos Tornou Humanos, acredita que toda essa adaptação esteja, hoje em dia, passando por um momento crucial. “Somos muito bons em selecionar as comidas capazes de produzir bastante energia. Entretanto, nós absorvemos muito mais do que precisamos. Isso não é uma boa adaptação”, adverte. HabilidadesA estimativa de que os seres humanos começaram a cozinhar os seus alimentos há 800 mil anos faz parte de um estudo recém-lançado por um grupo de cientistas de vários países, realizado em um sítio arqueológico no que é hoje o norte de Israel, no Vale de Hula. Até então, os registros fósseis indicavam que a centelha do que viria a ser uma arte carregada de identidades teria surgido a menos de 200 mil anos atrás. Para provar essa teoria, eles analisaram o esmalte de milhares de dentes de peixe encontrados nas escavações. Os dados indicam que esses peixes teriam sido cozidos em fogo controlado. Não há pistas sobre como isso era feito,mas estima-se que o cozimento se dava de forma indireta, enterrando o alimento abaixo das brasas, por exemplo. Desse modo, alimentos mais fáceis de digerir impulsionaram mudanças anatômicas, novas habilidades e cérebros maiores.