[[legacy_image_206423]] Pois é, eu tentei. Achei que dessa vez seria diferente. Sei lá, outro povo, outros costumes... Talvez não houvesse tantas caras e bocas, selfies em frente ao espelho com a bermuda erguida, a manga da blusa levantada, os músculos enrijecidos ao máximo e a respiração presa para que uma barriga forçosamente negativa aparecesse. Talvez não houvesse muita preocupação com aquele flerte clichê com o colega ou a colega do aparelho ao lado, à frente, atrás, com as portas, as paredes e a própria imagem a todo instante. Quem sabe num país diferente fosse menos intensa a competição velada — ou nem tão velada assim — para ver quem pega mais peso. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! É... eu estava enganada. É tudo exatamente igual. Óbvio que seria assim, já que vivemos o que um grande amigo comunicólogo, o mestre André Rittes, no seu livro A Imagem Social, chama de Nova Idade Mídia. Eu aguentei por dois meses. E olha, eu tentei. Desde fones de ouvido com música no volume máximo a tentar fugir para uma realidade paralela na qual meus olhos só transitariam superficialmente, sem fazer leituras. Embalei num aparelho que simula o movimento da remada. Um dos meus sonhos ainda não realizados é praticar canoagem. Sim, porque não gostar de puxar ferro não significa que não gosto de me movimentar de jeito nenhum... Mas é que nem sempre as opções possíveis me dão a chance de fazer as atividades que realmente gosto. Então eu me imaginei na Ponta da Praia em Santos, remando, remando... Até que um barulho mais alto do que a música que tocava nos meus fones praticamente me obrigou a voltar para a realidade. Era uma espécie de som gutural, mistura de gemido humano com aquilo que os felinos selvagens emitem quando vão atacar a presa. Olhei para o lado e era um rapaz fazendo um exercício para as pernas. Misericórdia! Pensei que o ciático dele tinha fisgado ou a coluna travado por conta de uma hérnia... Mas não. Era só um jeitinho bem especial de dizer: “ei, pessoal, o herói da academia está aqui, olhem só! Eu me esforço bem mais que os outros! Essa dorzinha aí que você está sentindo não é nada! A minha é que é!” Não deu. Mea culpa. Julguei e agora estou aqui, ré confessa, pronta para ser julgada pelos meus amigos e leitores defensores da boa forma (alguns também da saúde, mas nem todos). O Bruno, meu médico, vai achar ruim, assim como meus amigos Marcos e Márcio, pessoas realmente preocupadas com o meu bem-estar e saúde funcional, que sempre me incentivaram a praticar atividade física. Mas, amigos, não deu, de novo. Deve haver algum jeito de ter gain sem pain! Brincadeiras à parte, resta-me correr (figurativamente, claro) atrás de um lugar que tenha uma piscina que seja acessível financeira e geograficamente para que eu me exercite sem pirar. O frio europeu nessa época do ano não vai ajudar, mas o silêncio sob a água vale todo o esforço. Já garanti meus óculos de natação mais escuros, para me blindar dessas leituras do meu inconsciente que, presunçoso, está louco para me ver desistir novamente. Mas eu sou bem mais esperta que ele: quando ele me manda fazer nada, eu nado.