[[legacy_image_357889]] Resiliência. Resignação. Força. Talvez fé. Um cavalo resistindo por dias em cima de um telhado com água por todos os lados. Distópico. Inacreditável. Desesperador. São muitos os significados. A que ponto chegamos. Como deixamos chegar. O que fizemos. Qual a parte de culpa que nos cabe em ver um ser que não tem culpa lutar pela vida, em silêncio, horas na mesma posição. Torcemos por ele, o Caramelo. Rezamos. Nos emocionamos ao vê-lo deitado em um bote, mobilizando dezenas de voluntários, e finalmente a salvo. Uma história e uma cena que para sempre representarão as consequências das mudanças climáticas. E foram tantas. Cenas e histórias nos últimos dias, entremeadas pelas lembranças felizes das férias de janeiro quando estive em Porto Alegre, Gramado e Canela com meu sobrinho. Chorei todos esses dias. Pelas pessoas, por suas perdas materiais e emocionais. Pelos animais, por perdas que não sabem verbalizar e pelo medo que sentiram. Por quem não conseguiu se salvar. Pelo arrancar de um futuro dos gaúchos, que não deixa de ser um selar de destino de todas e todos nós. Porque acontecerá de novo. Certamente e infelizmente. Com cada vez mais fúria e violência. Em muitos lugares. Doei dinheiro. Ao longo da semana senti de enviar algo tangível, colocando intenção. Água, cobertores, produtos de higiene para mulheres, crianças e idosos. Acrescentei um cartão, escrevi à mão. Desejei a quem receber o melhor que poderia existir no meu coração. Imaginei as mãos de quem recebe e o fio invisível que nos conectará a partir de então. Quantos lindos fios invisíveis vamos criando em meio à tanta tristeza. Somos tão melhores juntas e juntos. Pena lembrarmos disso nas tragédias. Quanto tempo perdemos diariamente focados na diferença? O pior: estamos abalados agora, mas parte de nós voltará à estaca zero. Polarizando, prejudicando, competindo. Foi assim com a pandemia. Há quem parece jamais aprender. Quantas dores coletivas serão necessárias? Que sejamos capazes de dar valor a todas as vidas e à natureza que nos cerca e nos acolhe. Que a gente repense bem o significado de progresso urbano e material, tanto individual quanto em sociedade. O mundo do concreto e do asfalto exige um preço. Vamos vendo quanto é um preço alto. Crescimento sem respeito, em algum momento, será gerador de sofrimento. Ajude na emergência como puder, mesmo que com pouco, mesmo que com uma oração. Fora dela, quando essa emergência acabar e logo outra se avizinhar, olhe com atenção para as escolhas de consumo que você faz. Quais atitudes subjugam as demais vidas que nos cercam. Não é papo de gente exótica. É a única coisa que nos resta fazer para que a devastação não se torne a regra. P.S.: No lugar da música que sempre sugiro com a leitura, aproveito este espaço para reforçar como ajudar. As agências dos Correios estão aceitando doações (neste momento com apelo por água, itens de limpeza e higiene). O Grupo de Resposta a Animais em Desastre (GRAD Brasil) vem fazendo um trabalho incansável para resgatar animais. Pix: doe@gradbrasil.org.br. Todas as universidades do Rio Grande do Sul estão ajudando das mais diversas maneiras. Ano passado fiz um curso cuja parte do conteúdo era de professores da Universidade do Vale do Taquari (Univates), que prepara centenas de marmitas diariamente para desabrigados e voluntários. Pix: ajudavt@univates.br. Pelo site paraquemdoar.com.br, iniciativa da TV Globo, há uma lista de outras organizações sérias que estão realizando um grande trabalho. Cobre das marcas que você gosta e usa de que maneira estão fazendo a própria parte. Se não estiverem, repense suas compras.