[[legacy_image_307812]] Oi, Sabino, Meu nome é Alessandro José Padin Ferreira, mas pode me chamar de Padin. Não sei se você se lembra, mas sempre acredito que a alma do autor reacende quando suas histórias tocam, como o encontro marcado com alguém que se ama. Já estivemos juntos nesta vida por três vezes, casualmente. A primeira, no final da adolescência, em frente a estante de livros de um amigo; a segunda, homem feito, quando o encontrei em uma livraria e fomos caminhar; a terceira, nos dias em que passei pela sua Belo Horizonte, já curando feridas que vêm com a maturidade, respirando o espírito do seu tempo. O busto de Anita Garibaldi no Parque Municipal, recorda? Na primeira vez em que nos encontramos, cheio de sonhos, no frescor do mundo que se apresentava para a conquista e com todo o tempo do mundo, tive dúvidas sobre o que quis dizer sobre ter a certeza de estarmos sempre começando. Tudo era começo para mim, Sabino. Era tão estranho para um garoto como eu entender todas aquelas angústias de Eduardo. Eram suas também? Quando nos vimos novamente, homem feito como já disse, casado, com filho e os boletos acumulando na mesa da cozinha, entendi finalmente os recomeços, a solidão da insegurança e sim, encontrando forças onde nem tinha mais, tive a certeza de que é preciso continuar, sempre. Valeu, Sabino, você tinha razão sobre isso. Mas, escuta, demorou bastante para entender o que quis dizer na terceira vez que nos encontramos. Foi incrível aquele passeio pelo parque da capital mineira, aquelas ruas do Centro cheias de histórias e espíritos do tempo por cada esquina. Muito bonita a sua cidade. A parte da conversa que passou despercebida, e só fui compreender anos depois, foi quando disse sobre a certeza de sermos interrompidos antes de terminarmos algo. Acertou mais uma vez, Sabino. Certa vez o dia se fez noite na minha vida, não uma noite de lua cheia e estrelada, mas nublada e triste e finalmente entendi. Passei a vida interrompendo tudo antes de terminar. Foi pior do que se alguém o tivesse feito, pois fui eu quem o fez. Mas eu tenho uma coisa boa para te contar. Parei de me sabotar, de abandonar as coisas pela metade e tive a certeza, como você já havia me dito, de que estamos sempre começando, de que é preciso continuar. Não importa se já estou na meia-idade, se falta o fôlego e a impetuosidade da primeira juventude. Eu dei um grito, Sabino. Fiz da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte. Em cada procura, agora, busco um encontro. O primeiro deles foi comigo mesmo. Foi tão bom me reencontrar. Descobri o menino poeta e sensível que tinha escondido no sótão da memória. Você o conheceu lá na primeira vez em que nos encontramos e agora ele voltou. Quando vamos nos ver novamente, Sabino? Tem tanta coisa para te contar, mas queria que fosse pessoalmente, tomando um café. Olhei para a estante de livros agora e pensei ter te visto, sorrindo. Foi só impressão ou o convite para um novo encontro, dessa vez marcado? Desculpe, está uma bagunça danada tudo isso aqui. Obrigado por tudo, viu? Vou parar por aqui. Está uma chuva danada lá fora e adoro dançar na chuva. Um grande abraço! Li O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, em três fases diferentes da minha vida. É a obra que mais me marcou. Este texto é uma singela homenagem ao escritor mineiro, que faria 100 anos no dia 12 de outubro.