[[legacy_image_326532]] Do imperador chinês que ingeria mercúrio, acreditando ser o elixir da imortalidade, passando por reis, rainhas, papas e donas de casa, o uso de poções venenosas está presente na sociedade humana há milhares de anos. Opções nunca faltaram na fauna, na flora e em minerais. O segredo foi calibrar a dose, afinar a receita e determinar quanto tempo até obter o efeito desejado. Assim, de remédio a assassinato, venenos são mais cotidianos do que muitos imaginam e até mesmo o mais letal de todos está presente no corpo de milhões – se não bilhões – de pessoas. É a toxina botulínica, criada a partir de uma bactéria, ou melhor, de proteínas, que são hoje a principal linha de pesquisa no mundo – e uma das mais lucrativas. Apenas o Captopril, criado a partir do veneno da jararaca ilhoa, espécie que só existe na Ilha da Queimada Grande, no Litoral Sul de São Paulo, já rendeu US\$ 8 bilhões no mundo. Ele atende um ‘mercado’ de 1,5 bilhão de terráqueos que sofrem de hipertensão. Por isso, uma recente descoberta de pesquisadores brasileiros foi recebida com entusiasmo. Eles encontraram grande potencial biotecnológico no veneno de duas outras serpentes: uma da floresta de araucária do Paraná e outra da Amazônia. A floresta amazônica, aliás, não fica só nas cobras. A tarântula-de-faixa-laranja, além de fármacos, tem proteínas de seu veneno sendo testadas como um inseticida que protege as lavouras sem afetar abelhas. E por falar nesse inseto, em poucos anos deverá chegar ao mercado um soro, criado no Brasil, para ataques de abelhas africanas, que nos últimos cinco anos vitimaram 100 mil pessoas, com mais de 300 mortes. A busca por novas drogas se estende por escorpiões, lagartas, besouros, águas-vivas, polvos, peixes, sapos, formigas e até aves. Conhecemos cerca de 1.500 espécies dotadas de venenos e menos de 10% já estudada. Esse número pode até impressionar, mas não chega nem perto do potencial contido na biodiversidade vegetal – mesmo sendo elas, paradoxalmente, as fontes mais antigas de toxinas. A cicuta ganhou seu capítulo na história por vitimar, entre outros, o filósofo grego Sócrates, há 2.300 anos. Nas cortes romanas, os cogumelos eram populares, assim como a beladona foi a arma de muitos reis e rainhas europeias, eliminando herdeiros e rivais matrimoniais. A ricina, uma proteína do óleo de rícino, extraída da mamona, ganhou manchetes por seu uso em atos terroristas e as páginas policiais em casos de infidelidade conjugal. Mas, apesar de não possuir antídoto, para os egípcios, em documentos que datam de 3.500 anos atrás, ela servia para vários fins medicinais, combatendo de prisão de ventre até calvície. O segredo do sapoA criação de qualquer toxina envolve, a priori, a busca por um antídoto. Um caminho promissor, nesse sentido, vem dos sapos. Procurando entender como eles desenvolvem proteção contra seus próprios venenos, pesquisadores detectaram uma proteína no animal que ‘fisga’ essas moléculas e as transporta para a pele dos anfíbios, onde a toxina passa a agir como proteção contra predadores. Agora, o desafio é sintetizar esse composto e transformá-lo em um tratamento para diversos tipos de envenenamentos em seres humanos.