[[legacy_image_211986]] Ano após ano, desde muito antes de o ser humano construir seus centros urbanos, um visitante longínquo chega com a primavera ao Litoral Paulista. Viajando da Groenlândia e América do Norte, o falcão peregrino está se aproximando da região. Fugindo do frio que começa a se acentuar acima do Equador, esse predador, acostumado com altas montanhas e picos íngremes, se adapta, fazendo paradas estratégicas nos telhados e parapeitos das cidades da Baixada Santista. Em sua migração anual, o peregrino utiliza a arquitetura urbana como área de caça. Seus parentes locais, como o quiri-quiri, também já se acostumaram e, vez ou outra, fazem ninhos em vãos de marquises ou caixas de ar-condicionado – para espanto dos moradores. São caçadores hábeis, impressionantes em seus voos, dotados de visão privilegiada, músculos poderosos, mas, principalmente no caso dos peregrinos, ainda pouco conhecidos. Tanto que uma das poucas pesquisas já feitas trouxe mais perguntas do que respostas. É o que constataram a bióloga Louise Schneider e a pesquisadora Erika Zaher, do Museu Biológico do Butantan, ao analisar cerca de 2 mil registros da ave, feitos ao longo de 15 anos e postados em bancos de imagens, como o WikiAves. Dados da literatura científica demonstram que os peregrinos viajam cerca de 20 mil quilômetros em sua migração anual, um percurso equivalente a cerca de cinco vezes a distância de São Paulo até Manaus (Amazonas). Todo esse trajeto é percorrido em cerca de 40 dias e algumas paradas são repetidas ano a ano, como apontam os registros fotográficos. De acordo com as pesquisadoras, os animais mais jovens demoram mais. Isso se deve, provavelmente, à necessidade de acumularem mais energia para tamanha jornada. Outra hipótese é de que peregrinos jovens e maduros saiam juntos, mas os mais experientes consigam se orientar melhor, encurtando a distância. Por aqui, a pesquisa constatou que a alimentação básica da espécie são os pombos. Porém, com a diversidade da fauna local e uma providencial dose de adaptação, percebeu-se que os falcões também capturam papagaios, periquitos, araras e calopsitas, os chamados psitacídeos. Mais uma constatação do estudo se refere aos casais de peregrinos. Aqui, os registros mostram a presença de macho e fêmea. Isso difere dos estudos mais antigos, nos quais esses falcões se comportam como viajantes solitários. Nas próximas semanas, fique atento ao alto dos prédios e torres. Com um pouquinho de sorte, será possível ver essas aves imponentes em seus voos de caça, em que costumam alcançar mais de 300 km/h. MistérioA migração dos animais é uma das linhas de pesquisa mais fascinantes e, ao mesmo tempo, mais indecifráveis. Acredita-se, por exemplo, que muitas aves se orientam por meio do campo magnético do planeta, uma capacidade à qual a Ciência dá o nome de magnetorrecepção. O difícil é confirmar como elas fazem isso. Há quem defenda que se dá por meio de células no ouvido interno, que funcionam como uma bússola. Porém, apesar dos esforços de quase um século de estudos, esse é um enigma à espera de solução.