[[legacy_image_319890]] Belas e perigosas sereias, águas tão quentes que incendiariam as embarcações, monstros marinhos colossais e até abismos que aguardavam os navegantes no ‘fim do mundo’. Durante muito tempo, o oceano era visto dessa forma, um mundo repleto de horrores. Ainda hoje, conhecemos menos de 30% do seu leito, uma área imensa, maior do que a superfície da Lua. Não é de se surpreender, portanto, que até regiões ocupadas há séculos, como o litoral da Baixada Santista, ainda guarde segredos. É o que acaba de constatar um grupo de cientistas do projeto Avaliação Integrada dos Ecossistemas Marinhos do Atlântico no Espaço e no Tempo (iAtlantic, na sigla em inglês). O grupo, que congrega países que fazem fronteira com o Oceano Atlântico, com a participação de quatro universidade, descobriu em Santos uma imensa formação rochosa submersa no nosso litoral, com até 11 quilômetros de extensão. Os dados foram obtidos a partir de ecossondas, equipamentos que emitem pulsos elétricos que são convertidos em sinais acústicos, permitindo enxergar o leito oceânico. Dessa forma, a cerca de 800 metros de profundidades, os cientistas identificaram não apenas formações de recifes, como populações de crustáceos, anêmonas, esponjas-do-mar e peixes que habitam águas profundas. E encontraram também marcas de arrasto, sinal de atividade pesqueira, que sem orientação pode comprometer essa biodiversidade. Estudo recente no litoral do Espírito Santo, por exemplo, descobriu formações rochosas únicas, com milhares de metros de profundidade, batizadas de colinas coralinas. Nesses locais, onde já ocorreram atividades de mineração, a variedade de vida marinha é maior do que em áreas protegidas no litoral brasileiro, Caribe e México. Essa diversidade também é uma fonte de recursos para a pesquisa farmacêutica. Drogas a partir de esponjas, corais, algas e moluscos são usadas no tratamento de distúrbios neurológicos e câncer. Essa nova geografia é fruto da expedição que percorreu a costa de Santos por 17 dias, em dezembro do ano passado, a bordo do navio Vital de Oliveira. Dos monstros do passado, a Ciência nos revela um oceano de novas oportunidades, que só serão viáveis se partilhadas com sustentabilidade. No litoral brasileiro, a pesquisa envolve a Universidade Federal do Espírito Santo, a Universidade do Vale do Itajaí, a Universidade Federal de Santa Catarina e a Universidade de São Paulo (USP), com apoio da Marinha. ‘Pescando’ DNAUm dos métodos utilizados nas pesquisas do projeto iAtlantic é o chamado DNA Ambiental. Ele consiste em capturar amostrar de DNA (o código da vida), no ar, água, em sedimentos ou até mesmo em alguns seres vivos. Isso permite identificar um número muito maior de espécies do que os métodos atuais, de forma mais rápida e não invasiva, principalmente em biomas hostis à pesquisa, como as profundesas do oceano. O DNA pode ser coletado por filtros colocados em árvores, estuários, rios ou lagoas. Até mesmo drones, com superfícies adesivas, podem fazer essa coleta, durante o voo sob áreas de difícil acesso ou parados, na parte superior das árvores. DiagnósticoAcaba de ser concluído o 1º Diagnóstico Brasileiro Marinho-Costeiro sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. O documento, que será oficialmente apresentado em junho de 2024, destaca a importância do patrimônio marinho-costeiro para o bem-estar humano e alerta para degradação desses ecossistemas. A área marinha brasileira, chamada de Amazônia Azul, possui 5,7 milhões de km², equivale a 2/3 do território continental. Sozinha, essa área responde por 20% de toda a riqueza produzida pelo País. “A tendência de perda da biodiversidade e dos benefícios da natureza é alarmante. No entanto, possuímos todos os elementos necessários para reverter esse cenário”, afirma Alexander Turra, professor da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano na Universidade de São Paulo e um dos coordenadores do Diagnóstico.