(Arquivo) Lembro-me muito bem. Foi na virada dos anos 80 para os 90 que, ainda um adolescente, fui arrebatado por aquele ambiente pequeno, esfumaçado, lotado, com uma música que me transformaria para sempre. Nunca mais seria o mesmo depois daquela primeira noite no Bar do Torto, quando a Banda Blasfêmia abriu as portas de um mundo novo que eu sonhava desde aqueles primeiros dias do resto de nossas vidas, quando rabiscava poemas, me apaixonava platonicamente e desejava, na santa e bela inocência, mudar o mundo. Ali, o menino finalmente se transformou em homem. E é tão bonito encher a boca para dizer que o Torto acaba de celebrar 40 anos. Nada de “faria”, “completaria”, e afins. Prédios são pedras. E por mais que tenha sido dolorido o seu fim como ponto de encontro, mostrou que o espírito do tempo prevalece, mesmo com a sanha comercial dos corsários que fazem nossas cidades mais tristes e sem sentido. Nos encontramos por aí, carregando e renovando as lembranças daquelas noites. Foi no Torto que consolidei minhas preferências musicais. Aquele garoto teria se tornado um fã de Milton Nascimento, Lô Borges e toda aquela turma de Minas se não ficasse impressionado com a versão de Julinho Bittencourt e o seu Jornal do Brasil para Clube da Esquina 2? Teria conhecido artistas malditos como Arrigo Barnabé se não perguntasse de quem era aquela incrível canção Suspeito e os versos: Você tem medo de fazer amor comigo/ Você tem medo de acordar com um bandido/ E ver no espelho escrito com batom: - Tchau trouxa, foi bom! Aliás, Julinho, a tua versão é infinitamente melhor que a original. Ali conheci a Dri e me apaixonei. Caminhamos juntos por aí já tem mais de 27 anos, com o Pedro, um filho do Torto. Te amo, Dri. E as memórias fervilham também nos pequenos detalhes, emoldurados pela nossa busca por ternura em meio ao perverso. Certa vez tive que pagar duas vezes a mesma conta pela falta do carimbo na comanda para sair. Na semana seguinte, a moça do caixa, ao perceber o esquecimento, no fechamento do domingo anterior, fez justiça e deu o desconto. Ou mesmo quando saía de casa sozinho, sem telefonar para ninguém, pois sabia que iria encontrar os amigos por lá. Ao se manter vivo hoje em eventos pela cidade capitaneados pelo Michel Pereira, um dos seus donos, o Torto segue, como se tempo e espaço fossem coisas secundárias. E é bom que sejam. Essa sensação de tempo sempre presente me remete ao espanto de muitos ao visitar o Clube da Esquina, no Bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, ao perceber que é apenas um cruzamento em um bairro tranquilo. O que torna tudo mais mágico é sabermos que não é só isso. O que torna tudo mais mágico é saber que, no fundo, o Torto também vai além daquele imóvel no Canal 4. Sonhei um dia em escrever um livro sobre o bar. Entrevistei um monte de gente legal, mas nunca transformei isso em realidade. Tenho umas fitas guardadas e quem sabe agora leve isso adiante. Há um personagem citado nestas conversas como um dos primeiros frequentadores. Um rapaz que esbanjava alegria e costumava saudar a todos com uma frase: Esse é o caminho, brother! Esse mantra nunca saiu da minha cabeça. É isso, mesmo que o passar do tempo nos distancie daqueles dias, revivê-los faz com que a aura do Torto permaneça entre nós, pra sempre. Esse é o caminho, brother!