[[legacy_image_341125]] Muita gente ainda associa a cirurgia bariátrica apenas a questões estéticas. Mas, segundo a médica Mônica Mazzurana, que trás em seu currículo mais de 20 anos de experiência em bariátrica, isso é um preconceito em relação ao procedimento. Na verdade, o resultado estético é consequência da mudança no panorama metabólico que envolve, principalmente, a saúde do paciente. “O racional da cirurgia é o seguinte: o paciente com obesidade tem riscos cardiovasculares e de câncer aumentados, motivos pelos quais pode perder até 10 anos de expectativa de vida quando comparado a pessoas com peso normal. Em contrapartida, o risco cirúrgico é muito baixo e mínimo quando comparado ao impacto no organismo de uma doença crônica e progressiva como a obesidade”. Quem tem real indicação para fazer bariátrica? Segundo Mônica Mazzurana, aqueles pacientes que apresentam Índice de Massa Corporal (IMC) maior do que 35 ou que possuem doenças associadas à obesidade, como pressão alta, diabetes, colesterol alto, gordura no fígado, infertilidade, apneia do sono, varizes, pedra na vesícula, entre outros problemas relacionados ao excesso de peso. Já quem tem IMC maior do que 40, independentemente da presença de doenças associadas, também tem indicação da cirurgia”. Entre as contraindicações para a cirurgia bariátrica, Mônica aponta as pessoas com transtornos psiquiátricos graves e não controlados, com limitação intelectual significativa ou ausência de suporte familiar ou rede de apoio. Quanto à cirurgia, vale citar que ela pode ser feita de maneiras diferentes. O cirurgião bariátrico Amer Khatib explica que as técnicas operatórias mais comuns são o bypass gástrico e o sleeve ou gastrectomia vertical. “No bypass transformamos o estômago num ‘estomaguinho’ ou pouch gástrico, reduzindo sua capacidade de aproximadamente 2 litros para 60ml. Depois de confeccionado esse ‘novo estômago’, fazemos uma costura (ou anastomose) que fará a sua ligação ao intestino fino, criando um bypass, que nada mais é do que um desvio da passagem da comida. Portanto, temos uma cirurgia que é restritiva, porque faz com que caiba pouca comida, e também disabsortiva, já que o paciente passa a não absorver tudo o que come”. Já no sleeve, conforme o médico Amer Khatib, não há o desvio intestinal. “O que ocorre é o grampeamento do estômago de maneira que ele fique na forma de tubo ou manga. Essa é uma cirurgia considerada muito mais restritiva. No entanto, ambas as técnicas estimulam a produção de hormônios que interferem na fome, saciedade e produção de insulina”. Seja qual for a técnica, a cirurgia bariátrica, de modo geral, exige preparos pré-operatórios, que envolvem acompanhamento multiprofissional. Além do cirurgião bariátrico, é importante a participação de endocrinologista, cardiologista, nutricionista e psicóloga, que irão validar a indicação cirúrgica. Além disso, essas avaliações vão preparar o paciente para viver esse momento de transformação. “A cirurgia bariátrica é um grande passo que vamos dar todos juntos. Mas, a verdadeira mudança de hábitos será do paciente, assim como a boa evolução em longo prazo”, ressalta o cirurgião bariátrico Bruno Barreiro. “No pós-operatório acompanhamos os pacientes bem de perto até que ele atinja a sua meta”. O médico Bruno Barreiro orienta que o paciente bariátrico faça, pelo menos, uma consulta por ano. “A gente brinca que tem que haver ‘um casamento` entre o paciente e equipe de saúde para o resto da vida”. Outro ponto é que o paciente bariátrico necessita de reposição de vitaminas para o resto da vida para evitar o aparecimento de hipovitaminoses e outras doenças. “Esse é um dos assuntos que geram muita controversa em bariátrica, porque as pessoas dizem: ‘nossa, você vai ter que tomar vitaminas para o resto da vida. E a gente responde: ‘melhor vitaminas do que remédios para pressão alta e diabetes´”. Com relação ao peso que o paciente é capaz de perder após a cirurgia, a literatura sugere que seja em torno de 30 a 40% do seu peso inicial ou 70% do excesso de peso. “Esse cálculo é absolutamente individual porque depende de quanto cada pessoa pesa. A meta pode ser atingida em até um ano e meio depois da cirurgia, Mas, na prática, observamos que a maioria dos pacientes atinge sua meta em torno de 8 meses”, diz o cirurgião bariátrico Kleber Oliveira . Segundo o médico, a obesidade é uma doença que reduz a expectativa de vida e a bariátrica é capaz de retroceder isso. “A literatura deixa isso bem claro, ou seja, pacientes que tem obesidade grave ou com doenças associadas podem perder até 10 anos de expectativa de vida, devido ao risco aumentado de câncer e de doenças cardiovasculares. E, quando olhamos para pacientes com superobesidade, aqueles que tem IMC maior do que 50, a perda pode chegar a 15 anos. Quanto mais precocemente intervirmos, maior é o ganho pós-operatório com relação à melhora das doenças associadas, qualidade e expectativa de vida”, alerta Kleber Oliveira. Quais os riscos da cirurgia? O cirurgião Kleber Oliveira fala que os principais são fistula (vazamento entre os pontos), sangramento (que pode acontecer nas punções ou nas linhas de grampeamento), trombose (entupimento de uma veia da perda) ou trombose do pulmão (entupimento de uma artéria do pulmão). “Para evitar tudo isso, usamos medidas preventivas. “Hoje em dia, o risco da bariátrica é comparável aos da cirurgia de vesícula é a cesárea”. Em geral, após 15 dias o paciente consegue voltar a sua rotina de trabalho. Em home office, muitas vezes, já retorna depois de sete dias. No pós-operatório é importante acompanhamento psicológico de maneira individualizada. Até por conta de uma eventual dismorfia corporal (ou de imagem), que pode acontecer no pós-operatório, ou seja, os pacientes emagrecem, mas demoram para se enxergar magros. Quem opera não corre mais o risco de engordar? De acordo com a médica Mônica Mazzurana, as taxas de reganho de peso são diferentes entre as técnicas operatórias. “Para o bypass gástrico, por exemplo, a taxa gira em torno de 10%, mas, para o sleeve, essa taxa pode chegar a 30%. Por isso é tão importante indica-la para o paciente certo”. A especialista ressalta que as principais medidas para evitar o reganho são as mudanças de hábitos alimentares, prática regular de exercício físico e acompanhamento em longo prazo com equipe multidisciplinar. “A cirurgia bariátrica salva vidas, não só pela melhora das doenças, diminuição dos riscos cardiovasculares e prevenção do câncer, mas pelo progresso da saúde emocional e da autoestima. “Só quem não defende a cirurgia bariátrica é quem não conhece seus resultados”, finaliza Mônica Mazzurana.