[[legacy_image_237410]] Nos últimos anos, a evolução do diagnóstico e do tratamento oncológico criou nova perspectiva para os pacientes com câncer. Com os avanços tecnológicos e científicos, as pessoas vivem mais e com melhor qualidade de vida. Apesar dessa importante conquista, os pacientes oncológicos estão mais sujeitos ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares. É aí que entra a cardio-oncologia, uma subespecialidade recente da cardiologia que atua em conjunto com oncologistas, hematologistas e mastologistas com o objetivo de prevenir, detectar precocemente e tratar doenças cardiovasculares em pacientes com câncer em todos os estágios, inclusive no período após o tratamento. O cardiologista Leonardo Pippa Gadioli, doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), assistente do ambulatório de cardio-oncologia e reabilitação cardiovascular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCRP-FMRP-USP), além de membro do grupo brasileiro de cardio-oncologia, explica mais sobre essa especialidade que está salvando muitas vidas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Quais os principais problemas cardíacos que aparecem em pacientes oncológicos? Tem como prevenir? Os mais comuns são insuficiência cardíaca, miocardite (inflamação no coração), doença arterial coronariana, arritmias, hipertensão arterial, fenômenos tromboem-bólicos (formação de coágulos de sangue no interior das veias) e doenças da válvula e do pericárdio (membrana que envolve o coração). Eles podem aparecer em decorrência da quimioterapia e da radioterapia. A prevenção é feita com uma avaliação criteriosa dos sintomas em conjunto com exames complementares, que podem auxiliar na detecção de uma cardiopatia subjacente. No entanto, ainda não existem terapias para evitar cardiotoxicidade (dano do músculo cardíaco ou no sistema elétrico do coração causado pela quimioterapia e por outros tratamentos oncológicos). É muito comum a pessoa em tratamento oncológico sofrer com intercorrências no coração? Existem quimioterápicos, como as antraciclinas, cujo dano cardíaco pode chegar a até 50%, dependendo dos fatores de risco e da dose cumulativa. Algumas classes de quimioterápicos (antraciclinas, agentes alquilantes, terapias anti-HER2 e imunoterapia) podem danificar o músculo cardíaco, promovendo inflamação e diminuição da capacidade de bombear sangue, causando insuficiência cardíaca. É importante fazer um check-up do coração antes de começar o tratamento para um câncer? A avaliação cardiológica é importante, porque as doenças oncológicas e cardiológicas compartilham dos mesmos fatores de risco (idade, sexo, genética e tabagismo). Dessa forma, é imprescindível abordar o controle dos fatores de risco cardiovascular, discutir cardioproteção, adesão ao tratamento e estratégia para permitir o diagnóstico precoce de um dano cardíaco. Essas medidas têm como objetivo evitar o aparecimento, a progressão ou a descompensação de doenças cardiovasculares, além de diminuir a chance de necessidade de interrupção do tratamento oncológico. Quais os sintomas que indicam que o paciente oncológico pode estar com o coração comprometido? Falta de ar e intolerância aos esforços são sinais que podem ser confundidos com efeitos da quimioterapia, mas também sinalizam eventual insuficiência cardíaca. Por isso, é preciso atenção a mudanças do quadro, com aparecimento de falta de ar à noite, ao se deitar, inchaço nas pernas, fadiga ao caminhar pequenas distâncias e alterações em exames complementares. Hoje em dia, as quimioterapias de última geração agridem menos o nosso coração? Apesar dos avanços tecnológicos, ainda são usados quimioterápicos que podem causar agressão miocárdica. Em algumas situações, como na imunoterapia, a miocardite pode ocorrer em aproximadamente 1% a 2% dos casos. Porém, a presença de miocardite pode elevar a mortalidade em mais de 40%. Quais são os exames mais utilizados na cardiologia oncológica? Atualmente, os principais são eletrocardiograma, ecocardiograma com análise de strain miocárdico e marcadores cardíacos: troponina e os peptídeos natriuréticos (BNP ou NT-pro BNP). Todos esses exames têm o objetivo de identificar precocemente alterações cardiovasculares pré, durante e pós-quimioterapia. O eletrocardiograma identifica arritmias, bloqueios e aumento de câmaras cardíacas. O ecocardiograma com análise de strain auxilia na identificação precoce de cardiotoxicidade e alteração estrutural cardíaca (queda da função ventricular e valvopatia). O aumento dos níveis séricos de troponina e dos peptídeos natriuréticos também pode ajudar na detecção de cardiotoxicidade. Outros exames, como a ressonância cardíaca e a angiotomografia de coronárias, são usados em casos específicos. Pessoas que já são cardiopatas precisam de atenção especial no caso do diagnóstico de câncer? Com certeza! Portadores de cardiopatias apresentam maior chance de evoluir com problemas cardiovasculares, hospitalizações e até morte em virtude das complicações do tratamento oncológico. Dessa maneira, o cardiologista deve atuar em conjunto com o oncologista durante e após o tratamento oncológico. Quais os principais avanços da sua especialidade? Nos últimos anos, os principais avanços na cardio-oncologia foram a detecção e o manejo precoce das cardiotoxicidades, o que contribuiu para manutenção do tratamento oncológico, recuperação da função ventricular, diminuição do número de hospitalizações e problemas cardiovasculares em geral. Como deve ser a rotina preventiva de quem já passou por um tratamento oncológico? Existem diversas evidências que mostram o aumento do risco cardiovascular depois do tratamento oncológico. Diante disso, os sobreviventes de um câncer devem ser encorajados para controlar os fatores de risco e fazer alimentação saudável, controle de peso e atividade física. Além disso, aqueles que foram submetidos à radioterapia e à quimioterapia com potencial cardiotóxico devem ser acompanhados por um cardiologista. Quais os cuidados com a alimentação e a qualidade de vida que esse paciente deve tomar? A exposição à quimioterapia e à radioterapia causa diminuição da capacidade cardiorrespiratória e maior intolerância aos esforços, o que gera também maior estresse emocional e social e tem efeitos na qualidade de vida e na sobrevida. Nesse contexto, o exercício físico pode ser considerado um dos principais aliados na prevenção e reabilitação de pacientes tratados de câncer. A prática de atividades aeróbicas diminui o número de infecções após o transplante de medula óssea, reduz a fadiga, melhora a função dos vasos (endotelial) e aumenta a massa muscular e a capacidade cardiorrespiratória. Consequentemente, amplia a sobrevida em sobreviventes de câncer de mama, cólon, reto e próstata. Cerca de 150 minutos por semana de atividade moderada já são suficientes (divididos em duas a três vezes semanais). Os exercícios de flexibilidade (pilates, ioga e tai chi chuan) também são valiosos. Vale ressaltar que o tratamento cardio-oncológico é multidisciplinar e inclui os aspectos nutricional e psicológico, além de profissionais das áreas de enfermagem, fisioterapia e educação física. O cuidado integral proporciona melhora dos sintomas e da qualidade de vida da pessoa.