[[legacy_image_163927]] O médico Paulo Hoff, presidente da Oncologia da Rede D’Or e professor de Oncologia Clínica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica a terapia celular Car-T Cell, capaz de reprogramar as células de defesa para combater o câncer. Ela foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em fevereiro. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Como funciona esse novo tratamento contra o câncer? Trata-se de uma terapia desenhada, em que colhemos as células de defesa do paciente e as transformamos em células poderosas para combater as cancerosas. Ou seja, depois de modificá-las em laboratório, fazemos com que se proliferem e, por meio de uma infusão (parecida com a que ocorre em uma doação de sangue), as devolvemos para o paciente, que terá o seu sistema imunológico bem mais forte para identificar e combater a doença. É algo realmente revolucionário? Sim. É inovador porque conseguimos fortalecer o sistema imunológico do paciente com recursos laboratoriais. Inserimos receptores artificiais e o organismo fica muito mais eficiente para caçar as células cancerígenas. Essa ideia de fazer uma quimera, que ajuda o corpo a lutar contra o câncer, é fantástica. E serve para quais tipos de câncer? Hoje, nós temos a terapia Car-T Cell aprovada no Brasil para tratar linfoma não Hodgkin e alguns tipos de leucemia. Teoricamente, esse mecanismo de ação vai poder ser usado para outros cânceres? Trata-se de um princípio que teoricamente pode ser expandido para tratar outros tipos de tumores. Não seria a mesma Car-T Cell, mas a ideia de modificar a célula do sistema imunológico permanece. Desde que se identifique um antígeno específico, fica possível fazer a medicação. Mas isso ainda não existe no mundo. É algo totalmente experimental, uma promessa... O tratamento provoca algum efeito colateral? É um tratamento bastante tóxico, pois ele hiperativa o sistema imune do paciente, que acaba atacando não só as células cancerígenas. As reações são muitas e diferentes das convencionais nos tratamentos de câncer (não cai o cabelo ou provoca náuseas, como pode ocorrer nas quimioterapias). São efeitos colaterais graves de reações imunes, que só são identificados pelo médico. O paciente precisa ficar internado por vários dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Poucos hospitais do País fazem esse trabalho. A Rede D’Or foi uma das primeiras a realizar esse procedimento no Brasil, dentro do Hospital São Rafael, em Salvador. Depois, já fizemos alguns outros com bons resultados. A vantagem é que as taxas de resposta chegam a 70% ou 80% em tumores que levariam o paciente a óbito, caso não existisse esse tratamento. É algo ainda pouco acessível? Sim. Em primeiro lugar, porque há indicações bem específicas. Segundo, pela limitação econômica. O tratamento é bastante caro, pois é preciso retirar os linfócitos do paciente, mandar para um laboratório capacitado em fazer esse produto (são poucos com essa capacitação), criar a combinação necessária e retornar para o paciente. Ou seja, são necessários médicos, hospitais e laboratórios capacitados para trabalhar com esse procedimento, que ainda é muito novo em todo o mundo. Qual é o valor estimado desse tratamento? Hoje, nos Estados Unidos, o tratamento custa cerca de US\$ 400 mil. No Brasil – onde a terapia foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 23 de fevereiro –, o preço se aproxima de R\$ 2 milhões. Mas a ideia é que essa tecnologia vá avançando e o custo diminua com o tempo. É tão revolucionário que muitos serviços de transplantes de medula estão mudando até o nome para Serviço de Transplante de Medula e Terapia Celular. Trata-se do primeiro passo para uma área complexa, mas extremamente promissora para atacar tumores bem avançados. A boa notícia é que praticamente todos os anos temos opções terapêuticas, ou seja, linhas de tratamentos distintas para pacientes acometidos pelo câncer de maneira geral.