[[legacy_image_246691]] Depois de uns minutos olhando para as fotos que o Miguel havia acabado de tirar no nosso passeio pelo Castelo de Guimarães, notei contrariada a presença delas. Nem o sol do sábado, que nos lembrava a luz e as temperaturas da primavera, conseguiu me distrair daquela visão: a das rugas do meu rosto, visíveis e dispostas a acompanharem o sorriso do meu olhar! Curioso foi que tanto eu quanto ele reparamos o mesmo em nossas imagens, que, aos poucos, despedem-se do colágeno. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! — Nossa, já sou uma senhora — pensei, mas não falei. — Eu sou um “cota”! — disse ele em voz alta e com a espontaneidade que lhe é tão peculiar. “Cota”, para os portugueses, é equivalente ao nosso “coroa”. Rimos um sorriso desconsolado. Pensei no quanto foi difícil subir as ladeiras de Guimarães que me levariam até o castelo e, logo depois, na exaustão que me fez pedir para descansar diante das escadarias da muralha. Envelhecer é complexo. Não há nada de romântico, como alguns tentam fazer parecer. O luto pelas características físicas que se esvaem dia após dia é sentido em algum grau por todos nós, com mais ou menos consciência, com mais ou menos responsabilidade. Chamo de luto porque envolve, sim, uma série de perdas difíceis. Mas é possível se preparar melhor para esse processo do qual ninguém pode fugir, a não ser que tenha a vida interrompida. E a maioria de nós, por mais que reclame, na hora decisiva preferirá a velhice à morte. Não por acaso, decidi participar de um workshop sobre o assunto, oferecido por Ana Claudia Quintana Arantes, geriatra paulista por quem tenho profundo respeito, desde que a conheci há dez anos, quando tive o privilégio de entrevistá-la para o meu primeiro livro, Até o Fim, escrito em parceria com a colega Jessika Nobre. A médica, sem deixar de esboçar um sorriso largo, sempre fala-nos com sua voz doce sobre coisas difíceis como morte, luto e envelhecimento de forma muito direta e simples, sem ser simplista. Recomendo fortemente seus vídeos, palestras e livros, porque esses temas, ao contrário do que parecem, não se opõem à vida: fazem parte dela, e é preciso naturalizá-los. A doutora Ana Claudia propôs-nos, nesse encontro, uma analogia muitíssimo interessante: imaginemos que todos temos 40 anos. Reunimo-nos e descobrimos que seremos obrigados a nos encontrarmos novamente daqui a 30 anos, quando iremos juntos para o Saara. A viagem é só de ida e a única maneira de não embarcar é morrer antes. Quem sobreviver vai e ponto. Após sermos notificados da viagem, podemos fazer o que quisermos nesse intervalo até o próximo encontro. Podemos escolher nos prepararmos física e emocionalmente para a estadia forçada, reunindo ferramentas e conhecimento para que ela seja o menos traumática possível. Ou podemos ignorar o fato e não abrir o Google sequer uma única vez para pesquisar como é viver no maior deserto da Terra. O processo de envelhecimento é isso. Embora nenhum de nós queira passar por ele, nós passaremos. Embora ninguém queira fazer a viagem, todos faremos. Podemos escolher, no entanto, como o trajeto e, consequentemente a estadia, serão. Fui ao Google. Pesquisei sobre escolas de dança e possibilidades para alunos adultos com dois pés esquerdos. Achei uma perfeita! O primeiro cantil d’água para a viagem já está enchendo.