[[legacy_image_263589]] Workaholic assumida, Rita Guedes é o tipo de pessoa que se dedica ao máximo ao que se propõe fazer. Mas, com o tempo, aprendeu a respeitar os seus limites, principalmente após encarar uma síndrome do pânico por excesso de trabalho. Dona de uma bem-sucedida carreira de atriz, também tem se aventurado como produtora e se prepara para apresentar uma outra faceta para o público: a de escritora. A partir do ano que vem, Rita pretende começar a tirar do papel textos que escreveu ao longo dos anos - ela, inclusive, trabalha em um livro sobre a sua vida e carreira. Enquanto isso, pode ser conferida na peça Uma Relação Tão Delicada, que encerra temporada hoje no Teatro UOL, no Shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo. “E comecei a gravar a terceira temporada de Arcanjo Renegado, do Globoplay. As próximas duas temporadas da série já estão escritas. Vamos filmá-las juntas, no início de 2024”, adianta. Na entrevista, a atriz e produtora de 51 anos fala ainda sobre o fato de ser uma mulher de atitude e do período em que morou nos Estados Unidos. Além de atuar, você assina a produção da peça Uma Relação Tão Delicada. O que a levou a se experimentar nessa função?Eu sou uma curiosa. Tenho vontade de aprender tudo relacionado à minha profissão. Vim do teatro mambembe. Morei num trailer com o grupo e viajamos pelo Brasil por três anos. Acho que essa minha curiosidade nasceu aí, pois, a cada peça, a gente mudava de função: numa eu era atriz, na outra contrarregra, depois fazia iluminação, sonoplastia, produção... Acabei aprendendo um pouco de tudo, porque assim é o teatro mambembe. E isso me deixou com vontade de continuar produzindo. Minha primeira produção foi o espetáculo Qualquer Gato Vira-Lata Tem Uma Vida Sexual Mais Sadia Que a Nossa (1998/2002), que fez tanto sucesso que virou filme. Depois dessa peça, abri a minha produtora. Remontar Uma Relação Tão Delicada era um sonho antigo. Assisti a esse espetáculo há 30 anos, com a Irene Ravache e a Regina Braga, e ele me marcou demais, mexeu muito comigo, pois fala da relação entre mãe e filha, e eu tenho uma ligação bem forte com a minha mãe, a gente é amiga. Lembro que, após a sessão, fui jantar em um restaurante e, como há 30 anos não existia celular, pedi para telefonar para a minha mãe, para dizer que a amava. É verdade que está escrevendo um livro?Sim. Nele, falo da minha vida e da minha carreira. Comecei no teatro com 9 anos; portanto, há muitas histórias que nunca contei. Parei um pouco de escrever esse livro, por falta de tempo. Preciso terminá-lo. O que já está pronto é um roteiro de cinema, que pretendo produzir no ano que vem. Tenho o hábito de escrever, desde a época dos meus primeiros namorados. Devo ter entregue só 5% das poesias que fiz para eles. O resto ficou para mim. Já escrevi, inclusive, roteiro com a minha mãe, que também trabalhou como atriz. Até então, eu fazia textos sem compromisso, para botar as ideias para fora. Tenho guardados contos, poesias, roteiros de teatro e cinema... Ando com vontade de produzir o que escrevi. Você chegou a ter síndrome do pânico por excesso de trabalho. É workaholic?Sim, assumidíssima. Eu adoro trabalhar. Quando estou envolvida em um projeto de que gosto, deixo de sair, de namorar, paro o que for necessário para me dedicar para valer aquilo. Tive a síndrome do pânico em 2005, 2006, antes de ir morar nos Estados Unidos. Na época, eu estava gravando a novela Alma Gêmea e, ao mesmo tempo, fazendo vários outros trabalhos. Hoje, sei o meu limite e procuro manter um equilíbrio, me respeitar. Morou quanto tempo nos Estados Unidos? Dez anos, de 2007 a 2017. Foi uma experiência incrível. Como interrompi os meus estudos aos 17 anos para entrar no grupo de teatro mambembe, deixei pendente o desejo de me formar em Artes Dramáticas. Por isso, decidi morar nos EUA por um período. Mudei para lá para fazer os cursos que eu queria, com coaches de atores que admiro, como Halle Berry, Anthony Hopkins e Jack Nicholson. Só que acabei ficando mais tempo do que imaginava. Tinha pensado em, no máximo, dois anos e no final das contas foram dez anos, pois fiz mais cursos do que havia planejado. Mas não parei de trabalhar enquanto morei nos Estados Unidos. Vim algumas vezes para o Brasil, para fazer a novela Flor do Caribe e outros projetos. Em uma entrevista, você disse que valoriza demais a sua liberdade e que, para se tornar dona de si, pagou um preço alto por isso. Ao que se referia exatamente?Quando você é uma mulher jovem, bonita e que resolve não casar, as pessoas tendem a falar: “Ela deve ser chata, ter algum defeito...”. Elas não entendem que se trata de uma escolha minha. Eu precisei ter muito mais personalidade e atitude para me impor em determinadas situações porque, quando a mulher não possui um homem do lado, parece que o valor dela fica um pouco menor. E não são apenas os homens machistas que pensam desse jeito. Há um machismo estrutural que está presente, inclusive, em várias mulheres. De vez em quando, escuto falarem que sou arrogante, brava. Eu não sou assim. O que acontece é que, em certas ocasiões, preciso usar um pouco mais de força para me fazer ouvir e ser respeitada. Eu não sou uma mulher de abaixar a cabeça. Mas, apesar de ter uma personalidade forte, possuo os pés no chão e costumo me colocar no lugar do outro. Sem contar que sempre brigo por quem eu gosto. Não consigo virar as costas para injustiça.