A produção tem quatro episódios e está no Globoplay (Reprodução/ Instagram) Jô Soares foi um dos heróis da minha infância. Mesmo sem entender bem, adorava assistir aos humorísticos em que ele participava - como Planeta dos Homens - ou estrelava, como Viva o Gordo. Chegava a gravar o programa numa fita cassete (eu sou da época da TV preto e branco, antes do videocassete) para ouvir novamente durante a semana. Criador de personagens inesquecíveis, pioneiro do talk show no Brasil e intelectual de primeira linha, Jô forjou uma imagem para si de sofisticação, inteligência e cultura. Essa trajetória de mais de seis décadas é celebrada e contada em detalhes na série documental Um Beijo do Gordo, em cartaz no Globoplay e que presta uma homenagem mais do que merecida e necessária a uma das grandes figuras das nossas artes, neste período que marca os dois anos de sua morte. São quatro episódios muito bem produzidos, cheios de depoimentos do próprio Jô, de gente que conviveu com ele e de imagens de arquivo riquíssimas. O primeiro narra a infância e juventude, desde a época em que morava em um anexo do luxuoso Copacabana Palace e foi estudar nos Estados Unidos e na Europa, além dos relacionamentos - Cláudia Raia, que foi sua namorada, dá um depoimento bastante detalhado. Quando voltou ao Brasil, o pai havia perdido tudo e Jô acabou indo fazer teatro, iniciando a trajetória artística que o tornou um mito. Também relata a criação dos primeiros personagens, os bordões e a coragem de fazer piada com a ditadura militar. Termina no momento em que Jô deixa a Globo, no final da década de 80, com destino ao SBT. Nos episódios seguintes, conhecemos com detalhes os bastidores do programa Jô Soares Onze e Meia e a luta para estabelecer o horário das 23h30 como viável, o que começou a mudar os hábitos do brasileiro em relação à tevê, a volta para a Globo - com depoimentos interessantes como o de Fábio Porchat, que foi lançado por Jô em seu programa, e de Tatá Werneck, e outros que não fazem a menor diferença, como o de Luciano Huck. A série fecha com um episódio especial falando da intimidade e dos últimos anos de vida do apresentador e humorista, com imagens das entrevistas que concedeu em sua casa e o depoimento curioso de sua última esposa, Flavinha, a quem ele sempre prestava homenagens durante o programa e que relata a curiosa relação dela e de sua nova esposa, a cantora Zélia Duncan, com o ex-marido. Jô costumava dizer que sua relação com Flávia era “uma separação que não havia dado certo”. Senti falta de mais tempo dedicado aos personagens da época de humorista, que durante uma parte considerável de sua carreira foram sua principal marca. Impossível não lembrar, com carinho, marido ciumento que gritava a todo momento “Marilza, eu estou aqui”, do Capitão Gay, o dentista tarado com seu espelhinho (mais politicamente incorreto, impossível), Reizinho, Alice, Bô Francineide, Padre Carmelo ou a maravilhosa Vovó Naná. Eles, quase todos, estão no documentário mas recebem atenção menor do que mereciam. Fica também um gostinho de quero mais em relação a toda a produção intelectual de Jô Soares, de suas participações em filmes, espetáculos que dirigiu e livros que escreveu. Mas a função de todo documentário biográfico, creio, é despertar o interesse pelo personagem retratado, e isto Um Beijo do Gordo faz com competência. Não é o documentário definitivo sobre um artista e ser humano tão complexo mas cumpre bem seu papel. Sugiro, a quem quiser se aprofundar na história de Jô, a biografia “desautorizada”, em O Livro de Jô, uma obra aí sim memorável escrita pelo próprio Jô Soares e pelo jornalista Matinas Suzuki. Mas é sobre Jô Soares, e algo sobre ele não tem como não agradar!