[[legacy_image_281721]] Irmãos por Escolha, da Netflix, não é apenas o primeiro longa-metragem do diretor e artista plástico Gabriel Mattar. Também se trata do primeiro documentário rodado dentro da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), que fica em Resende, no Rio de Janeiro. Premiada nos festivais internacionais Lift-Off Global e Paris Awards em 2022, a produção mostra o dia a dia de formação dos cadetes e a relação de irmandade que eles desenvolvem. “Fui modelo e trabalhei em Milão (Itália), Paris (França) e Nova Iorque (EUA). Como desde pequeno a profissão de diretor me fascinava, quando fazia comerciais, pedia para também ser assistente de direção. Assim conheci diretor austríaco que estava começando a fazer a transição da publicidade para os filmes e fui seu assistente durante quatro, cinco anos. Depois, fiquei 15 anos dirigindo pequenos filmes de stop motion, animação e publicidade, dentro e fora do Brasil, pela minha produtora. Até que decidi que estava na hora de fazer meu primeiro longa e iniciei o projeto de Irmãos por Escolha de 2013 para 2014”, conta Gabriel. Na entrevista, o diretor e artista plástico de 44 anos compartilha um pouco das vivências que teve na Aman. Como foi para conseguir a autorização para gravar dentro da Academia Militar das Agulhas Negras? Acredito que existe uma demanda reprimida de falar sobre esse assunto. Portanto, não foi difícil conseguir a autorização para gravar lá. Eles nos receberam de portas abertas. Inclusive, costumam dizer que o Exército tem muros baixos, no sentido de haver uma transparência. Tanto que qualquer civil pode visitar a academia se quiser. As Forças Armadas se modernizaram com o tempo. No canal do YouTube da Aman, por exemplo, eles mostram um pouco das suas atividades. O que mais chamou a sua atenção enquanto gravava na academia? Me surpreendi com a ética e os valores que eles cultivam lá dentro. Não imaginava que fosse algo tão estruturado, com tantas tradições. Tudo que é ensinado foi testado pelo tempo. Apenas os processos bons foram mantidos. Há uma mística nas orações que eles fazem, nas canções militares e nos emblemas. Por exemplo, o saci-pererê é o emblema de instrução especial; a onça remete à guerra na selva. Também não sabia que o método deles envolve o que chamam de atributos da área afetiva, que são os que falam das relações humanas, de coragem, de camaradagem. Sem contar que há bastante superação; as dificuldades que eles enfrentam chegam a ser maiores do que se pensa. No curso de guerra na selva, os cadetes atravessam um dos trechos mais perigosos da Amazônia. Fui junto, senti na pele como é difícil. Eles têm muito orgulho do que fazem e falam bastante de como o civil desconhece a realidade deles. Com o documentário, tento jogar um pouco de luz nisso. A solidão deve ser um sentimento constante na vida dos militares. Eles sentem muita saudade de casa. Alguns, principalmente os que moravam longe, ficam um, dois anos sem ver a família direito, pois sai caro viajar com frequência. É comum cadetes que vieram do Nordeste e do Sul passarem os feriados nas casas das famílias de cadetes paulistas, mineiros e cariocas. E eles são recebidos com o maior carinho, acabam virando parte da família. Isso me emocionou. Já os cadetes que permanecem na academia durante os feriados são chamados de laranjeiras, porque eles ficam plantados lá. Pode citar outro exemplo de irmandade que o sensibilizou? No quarto ano, os cadetes descobrem em qual unidade vão trabalhar depois que se formarem. A definição acontece com base na classificação de cada um. Os mais bem colocados vão para os lugares mais desejados: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Florianópolis (SC). Tem uma história legal: um cadete bem classificado abriu mão da vaga em Brasília para o melhor amigo, que estava na 54ª posição, ir para lá para ficar perto da mãe que estava com câncer. E essa camaradagem não ocorre apenas entre eles. O cadete se torna suscetível a ajudar qualquer pessoa. Como o Governo Bolsonaro ecoou lá dentro? A academia foi idealizada em Resende, no Rio de Janeiro, justamente para ficar longe das cidades grandes, das capitais e das influências políticas. Lá dentro, os cadetes aprendem o raciocínio crítico, para que avaliem as questões de um modo analítico. A academia tem 212 anos e passa pelos governos mantendo esse distanciamento. Basta ver que lá não pode haver comício nem qualquer ato ligado à política, inclusive quando o presidente da República vai para participar da formatura de uma turma. Há muita desistência? Os cadetes ficam quatro anos na academia, só que, antes, passam um ano na escola preparatória em Campinas (SP), que é onde há os maiores índices de desistência. Reparei que os motivos para uma pessoa ir para as Forças Armadas não são estáticos, se mostram bem dinâmicos. Muita gente busca uma vida financeiramente estável, mas, com o tempo, isso fica em segundo plano e o desafio acaba virando a grande motivação. Há o que eles chamam de farol, que é o capitão, o tenente, ou seja, alguém que se torna exemplo e fonte de motivação por sua conduta e conquistas. Com o tempo, o patriotismo entra no meio disso. A formação das mulheres é diferente? Eles adotam o princípio da isonomia. Portanto, as mulheres são tratadas igual aos homens. A primeira entrevista que fiz lá dentro da academia, aliás, foi com uma cadete, que disse: “A altura da montanha e o peso do nosso fuzil e da nossa mochila são os mesmos dos cadetes”. Há distinção apenas de alojamento e banheiro. As aulas e as atividades práticas, todo mundo faz junto. E como eles lidam com os homossexuais? Pelo que vi, eles não ligam muito para a questão da sexualidade. Somente não querem atividades sexuais lá dentro, sejam héteros ou homossexuais. Lembro que na olimpíada que acontece todo ano um casal hétero foi desclassificado por ficar lá dentro.