[[legacy_image_234665]] Enfim, 2023. Conseguimos sobreviver às festas de fim de ano, mais uma vez. Sei que há muitas pessoas que adoram, genuinamente essa época, mas convenhamos que há muito a elaborar, por dentro e por fora, quando ela chega. Além do cansaço natural, após os tradicionais preparativos, existe um sem-número de situações emocionais que permeia o encerramento e o início de um ano e que também requer uma boa dose da nossa energia. Muitos fazem a sua própria retrospectiva e apegam-se às memórias que servem para acalentar ou para motivar a agir diferente. Nem todos o farão, isso é fato. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Ao longo do tempo, ao observar as festividades — e as pessoas —, dei-me conta de que é um período difícil para muitos, principalmente depois dos 30 anos, quando o verniz social já não nos engana tão facilmente. Para quem está na casa dos 30, lamento informar, mas, após os 40, a observação fica ainda mais apurada. O desejo de ser leal a si mesmo cresce de uma maneira considerável. Não há mais tempo para estar onde não se quer, com quem não se quer. E se insistirmos em não respeitar essa vontade, em nome do que dizem ser o “espírito” que ronda “a união e a harmonia”, alguns rituais certamente vão se tornar extremamente aborrecedores. Esse mal-estar nada tem a ver com amar ou deixar de amar, com respeitar ou não, com gostar ou não da partilha. Tem a ver com o zelo pela própria saúde mental. Há duas maneiras de escapar do desgaste: suspendermos o olhar atento e até intrusivo que a vivência nos dá — coisa que requer bastante habilidade — ou simplesmente não estar presente fisicamente. Nenhuma delas nos poupa de seus efeitos colaterais. No mínimo, seremos os excêntricos. Eu gostaria que houvesse um lugar especial para que as pessoas que se encaixam nesse perfil pudessem ser poupadas nesse período. Precisamos admitir para legitimar o espaço gigante reservado para as saudades e a tristeza durante as festas. E a acusação, velada ou explícita, de ser o estraga prazeres, razão pela qual a foto não ficou completa ou plenamente feliz, o que não ajuda em nada. É preciso que o amor que tanto se preconiza nessa época se estenda para aqueles que, por muitas razões, não entram no “clima”. Diversos amigos e pessoas próximas compartilham esse sentimento, por motivos variados. Agradecem os votos de felicidades, desejam genuinamente o mesmo, mas não conseguem encarnar o tal “espírito”. É necessário que falemos disso, porque é natural não nos sentirmos como as outras pessoas (ou ao menos como elas querem parecer) diante de datas específicas, ritos e eventos sociais. O meu desejo para este recém-nascido 2023 é que respeitemos as escolhas que não são nossas. O respeito é primo-irmão do amor incondicional. É por meio dele que conseguimos sobreviver e conviver com as divergências, mantendo a humanidade. O respeito ao adversário, por exemplo, é o principal meio de verificarmos a dignidade e a grandeza de um atleta. Perde muito mais que uma medalha quem ignora esse fato e tenta impor sua vontade à força, fazendo birra contra um resultado, recusando-se a ponderar racionalmente os acontecimentos. Falar de amor, paz e bem uma vez por semana ou por ano não basta. É preciso ir além, e um dos principais modos de conseguir é respeitando as diferenças no cotidiano. Feliz (e diferente) 2023 para todos nós!