[[legacy_image_211904]] Cerca de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Crianças também são atingidas, mas têm manifestações diferentes das registradas em adultos. O psiquiatra Wagner Gattaz, presidente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina, da Universidade de São Paulo (USP), responde dez dúvidas comuns dessa doença que cresceu mais de 40% com a pandemia. 1. A depressão é uma doença que atinge o principal órgão do corpo: o cérebro. Como é feito o diagnóstico e qual o melhor tratamento?O diagnóstico é basicamente clínico. Mas é importante deixar claro que a depressão não é só tristeza. Esse é um dos componentes da doença e nem é o mais importante. O deprimido sente também diminuição da concentração e da memória, dificuldade de raciocínio, falta de energia, sensação de cansaço, dores musculares, insônia, tensão nos ombros e na nuca. E também pode não sentir nada, o que é ainda pior. Chama-se sensação de anedonia, que é a diminuição da capacidade de sentir. O paciente tem a impressão de que está anestesiado por dentro. Não consegue nem mesmo chorar. Em geral, o tratamento é feito com remédios, que estimulam a produção e a liberação de neurotransmissores como a serotonina (que promove o estado de vigília) e a noradrenalina (responsável pelo controle do nível de ansiedade e da melhora do humor, do sono e da fome). 2. Muita gente tem receio de que a medicação mascare o problema ou mesmo faça com que a pessoa deixe de ser quem é. Existem esses riscos?A depressão é uma doença que precisa ser tratada. O que muda a personalidade das pessoas são drogas como o álcool, a cocaína e o crack. O remédio não vai fazer ninguém ficar mais alegre do que deveria. A própria depressão despersonaliza, ou seja, transforma o paciente em alguém diferente. Já a medicação vai ajudá-lo a voltar a ser o que era. 3. O uso do medicamento é por tempo limitado?Há situações em que suspendemos o medicamento e a pessoa não tem recaída. Mas pode acontecer de o paciente, logo que começa a reduzir a dose, apresente piora. Em cerca de 1/3 dos casos, a gente trata e, após suspender o remédio, a pessoa continua bem, sem recaídas. 4. Há a possibilidade de o remédio causar dependência?Antidepressivo não vicia, assim como não existe diabético viciado em insulina nem hipertenso viciado no remédio para estabilizar a pressão. O paciente toma medicamento para dar ao corpo o que ele está precisando. 5. Hoje em dia, por acaso, a doença ainda é negligenciada?Existe a confusão entre tristeza e depressão. Só que a tristeza não é doença e, sim, algo que aparece decorrente de uma causa como uma perda. Nesse caso, o tempo é o melhor remédio. Em contrapartida, na depressão, o doente possui um desequilíbrio químico no cérebro, que precisa de tratamento. 6. Existe risco genético?É cientificamente comprovado que sim. A população em geral tem 15% de chance de desenvolver a depressão. No caso de quem possui um irmão que sofre de depressão, por exemplo, essa porcentagem sobe para 35%. 7. Como ajudar um parente que está com essa doença?Muitos se enganam tentando fazer com que o deprimido saia de casa para se divertir ou praticar esportes. Mandar o doente “reagir” é a pior coisa. É o mesmo que pedir para uma pessoa correr com a perna quebrada. Conselhos como esses fazem com que a pessoa se sinta ainda mais fracassada e aumentam a tendência de ela se achar inferior ou insuficiente. O melhor a fazer é mostrar que compreende a situação e que sabe que o familiar ou o amigo precisa de repouso e tratamento. 8. As crianças também podem ser atingidas pela depressão?Essa doença pode aparecer em qualquer fase da nossa vida. Nas crianças, os sinais são diferentes. Irritabilidade exagerada, déficit no rendimento escolar, queixas de cansaço e falta de energia são alguns dos sintomas que devem ser avaliados pelo médico nessa faixa etária. 9. A depressão pode ser um sintoma secundário de alguma outra doença?Pode acontecer de o diagnóstico de depressão anteceder o de um câncer ou de Alzheimer. Doença de Cushing, que é o excesso da produção de cortisol, e alguns distúrbios da tireoide frequentemente desencadeiam quadros de depressão. 10. Há ainda algum tipo de discriminação dos pacientes?A depressão não é um sinal de fraqueza nem de falta de caráter. Trata-se de uma doença como qualquer outra, e ela tem altos índices de sucesso no tratamento. Isso acontece em 80% dos casos. Como a depressão age no cérebro, que é um órgão frágil e complexo, exige cuidados especiais. No entanto, as perspectivas de melhora são animadoras. E o mais importante de tudo não é viver sem remédio e, sim, conseguir viver sem depressão!