Decameron é uma versão em fascículos do clássico de Giovanni Boccaccio (Divulgação/Netflix) Cresci cercado por livros, que eram paixões dos meus pais. Mas havia os proibidos, que ficavam trancados dentro de um armário cuja chave eu sempre soube que se encontrava escondida dentro de um vaso. E entre os “censurados” estava Decameron, uma versão em fascículos do clássico de Giovanni Boccaccio, que eu furtivamente retirava, um a um, para ler. Eram contos sempre com um tom de comédia, alguns mais eróticos (a razão da censura), outros de pura sátira, mas sempre dentro do universo medieval que adoro desde então. Por toda essa memória afetiva, imagine minha expectativa com a versão em seriado que a Netflix estreou há poucos dias e que vem frequentando o top 10 do serviço desde então! E, embora o formato seja bem diferente do livro - cadê os contos? - e pouco tenha da história original além do período histórico e dos nomes dos personagens, gostei. Achei engraçadíssima a concepção dos personagens e o desenrolar das histórias próprias que, juntas, formam um cenário de verdadeiro caos, um descontrole que só pode terminar mal. Tudo se passa no século 14, na Itália, no período em que a peste bubônica, transmitida pelos ratos, estava dizimando a população da Europa (ao final da pandemia, teria matado quase metade da população). É neste cenário trágico, em que corpos jogados pelas ruas são coisa comum, que se desenrola a história de um grupo de nobres que, para fugir da peste, se reúne em um castelo e se isola do resto do mundo. Neste microcosmo, são debatidos temas muito mais universais, como a luta de classes, poder, feminismo e sexualidade. E, apesar de tudo isso, o que se assiste é uma sátira repleta de ironia e humor ácido, que não poderia ser mais atual, graças à pandemia recente pela qual passamos. Cada um dos personagens está ali pensando única e exclusivamente em sua própria sobrevivência e interesses. Há a empregada que tenta matar a patroa na estrada e vai ao castelo clamando ser a prima do anfitrião. Há a esposa ninfomaníaca e fanática religiosa que trai o marido em qualquer oportunidade que tenha. Tem também o mordomo do anfitrião que esconde de todos que seu patrão morreu - da peste - logo depois de ter enviado o convite. A nobre que se acha melhor do que todos e sonha em se casar com o anfitrião, que já está morto. E o médico que vive explorando e manipulando seu patrão neurótico enquanto corre atrás de todos os rabos de saia que encontra pelo caminho. Absolutamente todos, com seus segredos, mágoas e ódios, tentam se dar bem em um mar de mediocridades e humanidades. O melhor: eles são interpretados por ótimos atores e atrizes, como Tony Hale (de Arrested Development), que vive o misterioso Sirisco ou a hilária Tanya Reynolds, que vive Licisca. A trilha sonora incidental é muito boa, mas não achei boa a ideia de colocar canções pop contemporâneas no meio da trama. Talvez o grande problema da série seja seu título. Ao reclamar para si a obrigação de adaptar uma obra tão grandiosa e que a tantos (Shakespeare incluído) influenciou, Decameron ganha um peso e uma responsabilidade bem difíceis de serem alcançados. Esqueça disso e a chance de você se divertir será muito maior!