[[legacy_image_240700]] Já tive a oportunidade de entrevistar Danton Mello algumas vezes ao longo da carreira, e é fato: ele tem um jeito solar, simpático e atencioso, sem contar que é garantia de bom papo. Neste novo encontro com o ator, visitamos memórias do início da sua carreira, além das lembranças da infância em Passos, cidade mineira onde nasceu, e da sua aproximação do universo da dublagem. Por falar nisso, acaba de chegar aos cinemas Chef Jack, animação nacional em que Danton dubla o personagem principal. Na entrevista, o mineiro de 47 anos fala de gastronomia, da revisão dos conceitos de espiritualidade – deixando de ser ateu e se tornando agnóstico - e das duas filhas, Luisa, de 21 anos, e Alice, de 18. Você dubla o personagem principal da animação Chef Jack, mas não é a primeira vez que faz isso na carreira. O que pesou para se aventurar nesse universo? Foi algo que aconteceu gradualmente e meio que por acaso. Em 1985, eu estava gravando a novela A Gata Comeu e, na época, a Globo alugava os estúdios da Herbert Richers no Rio de Janeiro. Um colega de elenco que já fazia dublagem me levou para conhecer esse tipo de trabalho e me indicou porque, até então, os personagens infantis eram dublados por mulheres e eles estavam passando a colocar crianças para fazer essas vozes. Assim ingressei nessa área. Hoje, olhando para trás, vejo que foi uma grande escola. Eu comecei a trabalhar pequeno, nunca estudei interpretação, nem dublagem. Digo que aprendi com os maiores artistas do País, na prática. Inclusive, lembro que, anos depois, quando fui fazer teatro, me perguntaram se, por saber como colocar a voz, tinha feito algum curso ou fono. A dublagem, sem dúvida, foi muito importante na minha vida. Só que, com o tempo, acabei me afastando, pois fui emendando uma novela na outra e ficou difícil para conciliar as agendas. Mas sempre que dava dublava algo. O que o atraiu no filme Chef Jack? Quando analiso os trabalhos que vou fazer, preciso me identificar com eles, senão recuso o projeto. No caso do Chef Jack, me encantei com o roteiro e com a mensagem da história. O Jack é um chef talentoso e determinado, mas tem um pé na arrogância, por se achar o melhor. Ele resolve entrar num reality show para provar que é o maior de todos e, no caminho, descobre que o que importa mesmo são a amizade, o respeito, a tolerância e a parceria com as demais pessoas. Isso me tocou. E você, por acaso, curte cozinhar? Eu gosto de comer bem e de tudo. Sem falar que sou mineiro. Em Minas Gerais, às vezes, a cozinha é maior do que a sala da casa. Minha lembrança de infância é ficar em volta da cozinha da fazenda dos meus tios, que tinha fogão a lenha. Olha, já tentei me aventurar, só que não me saí muito bem cozinhando (risos). Para não dizer que não faço nada, quando minhas filhas eram pequenas, “criei” o prato Macarrão do Papai. Hoje, já adultas e morando fora do Brasil, elas me mandam de vez em quando foto com a seguinte mensagem: “Estou fazendo o Macarrão do Papai”. Não é uma receita elaborada – ela leva creme branco e salmão –, mas tem aquele gostinho de infância, que desperta memórias. No meu caso, é o picolé de groselha de Passos, cidade onde nasci. Tem algum hobby? Nenhum, na verdade. Eu amo muito é trabalhar. Quando fico sem nada para fazer, penso: “Preciso arranjar algo”. Só que não me considero workaholic. Mesmo que certos trabalhos acabem sendo puxados, cansativos, sinto um prazer tão grande! Na adolescência, vi colegas ponderando qual faculdade iriam cursar e também me questionei quanto a entrar na universidade ou não. Porém, concluí: “Sou ator, conto histórias. Preciso me aprofundar nisso”. Naquela época, eu tinha feito novelas. Depois, vieram teatro, cinema, andei pelos gêneros mais variados, ou seja, me expandi. Hoje em dia, percebo que construí uma carreira bem equilibrada. O legal é fazer um pouco de tudo. Quais serão os seus próximos projetos? Entre março e abril, lanço o filme Ninguém é de Ninguém, baseado na obra da Zibia Gasparetto. Esse longa me traz de volta à temática espírita, depois de ter feito Predestinado: Arigó e o Espírito do Dr. Fritz. A diferença é que as pessoas vão me ver pela primeira vez interpretando um cara ruim, o Roberto. No meio do ano, sai a comédia Apaixonada, inspirada no livro Apaixonada aos 40 e na qual contraceno com a Giovanna Antonelli. Há mais projetos a caminho, é que não posso dar detalhes por enquanto. A minha cabeça está a mil por hora. Sente vontade de se aventurar como produtor, roteirista ou diretor? Penso nisso há anos, mas aí aparecem trabalhos excelentes como ator e vou deixando essa vontade de lado, pois amo atuar. Não fico triste por não ter me experimentado nesse sentido ainda. Se sempre surgirem projetos bacanas como ator e, lá no fim da vida, eu não tiver conseguido dirigir, nem escrever um roteiro, tampouco produzir, sem problema. Vou morrer feliz por tudo o que fiz como ator. A espiritualidade tem sido um tema presente nos seus últimos trabalhos. Você declarou até que isso fez com que reavaliasse a sua relação com a fé. Como anda esse processo? O filme Predestinado mexeu bastante comigo. Eu nasci em uma família católica e, na adolescência, passei a questionar a religião e fui me afastando dela. Fiquei anos afirmando que eu era ateu, só que com o Predestinado notei como, mesmo não frequentando o espiritismo, ele me traz respostas sobre a vida que me tranquilizam. No momento, eu digo que sou agnóstico. Prefiro deixar as coisas fluírem, os sinais chegarem... E eles estão vindo mesmo!