[[legacy_image_232524]] Existe uma cobrança em nossa sociedade para estarmos sempre acompanhados, em busca da nossa “metade da laranja”. Essa pressão causa nas pessoas a insegurança de ficarem sozinhas. A maioria acaba idealizando uma alma gêmea ou um romance de conto de fadas como único caminho para a felicidade. E há os que permanecem em relacionamentos tóxicos por medo da “solitária vida de solteiro”. Mas será mesmo possível ser feliz sozinho, contrariando a música de Tom Jobim? Primeiro de tudo, é preciso entender que não existe uma única jornada para a felicidade. Nem mesmo uma receita de bolo que funcione para todos. “O desejo de compartilhar é natural do ser humano saudável. Não há mal nenhum em querer viver com alguém ou sentir falta de companhia. Mas é importante o ser humano quebrar esse conceito de ‘metade da laranja’, pois não é justo viver pela metade. Caso não tenha um par, você é meia-pessoa?”, indaga a psicóloga Marcelle Vitorino. Ela explica que o conceito de “pedaços em busca de outros pedaços para serem um” se mostra muito equivocado, já que a saúde mental depende de se sentir inteiro e integrado, não aos pedaços, desintegrado. FantasiaVárias pessoas costumam buscar na fantasia uma forma de amenizar os seus sofrimentos. “É uma maneira de não lidar com a tal ‘parte que falta’”, diz Marcelle. Assim, é comum buscarmos na ficção, como nos filmes e contos de fadas, a presença complementar do outro. “A sociedade e a mídia nos atravessam com a ideia de que só é possível sermos felizes na presença de alguém. Dessa forma, eu idealizo e idealizar é como esperar por algo pronto, que me traga todas as necessidades supridas. Portanto, não basta uma boa relação, é necessário que seja também uma grande história de amor”, explica a psicóloga. Ocorre também uma idealização da constituição da família e da vida tradicional a dois. “Uma mulher que decide sair da casa dos pais e morar sozinha está construindo a sua família também. O jovem que sai de casa para morar com amigos constrói ali sua rede de apoio; logo, tem ali uma família”, afirma Marcelle. Ela acrescenta que a família, tradicional ou não, pode ser construída aos poucos, da forma que se desejar e conseguir. “Não é necessariamente composta por dois”. Solteiro X SolitárioUma pessoa solteira não é necessariamente solitária. Isso porque a solidão não é exclusiva do sujeito desacompanhado. O solteiro pode fortalecer as suas relações diversas, se sentir valorizado e cuidado por amigos, pelo trabalho, pela própria vida; e, assim, quem sabe, experimentando da sensação de estar só – que é diferente de estar solitário –, esse sujeito possa escolher incluir alguém em sua vida para potencializá-la, mas não para criá-la. “Às vezes sozinho, o ser humano é capaz de fazer até mais por si mesmo do que quando está em um relacionamento. Então, ser solteiro não necessariamente significa estar solitário ou em falta, já que o comprometido pode estar solitário e se sentindo sozinho em um relacionamento”, esclarece a psicóloga. A especialista relata que atende muitas mulheres que se sentem totalmente sozinhas em seus relacionamentos amorosos. “São mulheres casadas que se encarregam da maior parte das responsabilidades do casamento, isso quando elas não carregam também as responsabilidades da vida adulta, como filhos e trabalho. Aí fica a reflexão: ter alguém é sinônimo de ter amparo, companhia e parceria?” Experimentar a felicidade está ligado justamente a dar conta de si mesmo e sobreviver à sensação de desamparo e solidão. Não é tarefa fácil, principalmente se a pessoa tem muitas faltas registradas dentro de si, como abandonos vivenciados anteriormente, vínculos familiares frágeis, uma baixa autoestima e más experiências afetivas na infância. Logo, é possível se sentir realizado sozinho. E, quem sabe, após ficar bem sozinha, a pessoa passe a buscar uma relação com o outro por prazer e escolha, e não por necessidade.