(Adobe Stock) Minha cachorrinha Charlotte passou por uma cirurgia. Tirou um nódulo do fígado e a vesícula já dançou junto. Escrevo agora sentada no sofá, coisa que não costumo fazer, por motivos de postura, para não ter dor nas costas e no pescoço. Mas minha vira-latinha está aqui deitada ao meu lado, no cantinho preferido dela no sofá. Cada vez que coloco a mão de leve em sua barriguinha, onde estão os pontos, ela respira fundo e pisca devagar. Sabe que estou com ela para o que der e vier. Só quero que sua dor e desconforto vão embora o quanto antes, nem que para isso eu precise ficar com dor nas costas e no pescoço. Cuidar de quem se ama é um privilégio. Quando é um cuidado de saúde parece que todo o resto do mundo se torna menor. A gente lembra rápido o que realmente importa na vida. O que exige de verdade nossa preocupação. Claro que os compromissos continuam a correr. Preciso trabalhar, cozinhar, cuidar da casa, cuidar de mim, cuidar também dos meus três gatinhos. Mas a energia muda. Quando alguém que a gente ama precisa do nosso colo, apoio, dedicação total, as demais atividades se tornam coadjuvantes. Devem ser realizadas, sem dúvidas. São realizadas, no entanto, com mais foco e determinação. Tudo para que sejam cumpridas logo e com qualidade, para não serem refeitas e, assim, sobrar o tempo necessário para os cuidados dos nossos afetos mais queridos. Quem cuida também precisa se deixar cuidar. Meu casal de melhores amigos nos buscou no hospital veterinário no momento da alta da Charlotte. Minha mãe passará uns dias aqui em casa com a gente para ajudar com minha meninona enquanto trabalho. Meu pai vai me levar de carro (não dirijo) no pet shop e no supermercado para eu não me preocupar em parar para fazer compras durante a correria da semana. Aceitar ajuda é essencial para cuidar bem. Não incomum, a pessoa no papel de cuidadora acaba doente, fisicamente e emocionalmente, ao assumir a responsabilidade de zelar por alguém. São pessoas que necessitam demais de apoio psicológico e mãos estendidas para que não se esqueçam de si mesmas. Na dedicação extrema e sem rede de apoio, é possível sucumbir e até mesmo enfrentar sentimentos conflitantes com a condição do amar. Tristeza, raiva, culpa, exaustão. Falando em pais, esses dias minha amiga Regina Truffa, psicóloga, levantou um debate no Instagram dela sobre quem tem a função de cuidado com os pais idosos. Não é sobre inverter papeis, como costumamos afirmar. Diz Regina: “Pai e mãe nunca serão nossos filhos! Se você exerce uma função de cuidado com eles, está dando o que recebeu. Seu afeto é retribuição. Cuidado para não infantilizá-los, eles têm história! Crie pontes e não muros entre vocês. Os passos são mais lentos, o que não faz deles mais dependentes dos filhos. Amparo e cuidado não alimentam dependência, fazem ninho.” Eu adorei a reflexão e acredito mesmo que cuidar é sobre honrar tudo o que fizeram por nós. Sejam pessoas ou animais, onde há amor há troca. P.S.: Do fundo do baú, direto de 1994, lembrei da música do The Pretenders, I’ll Stand by You, cuja letra reforça: “eu estarei com você, não deixarei ninguém te machucar” - eu cantei bem alto agora para minha Charlotte.