[[legacy_image_309555]] Durante os meses de setembro e outubro, 11 estudantes meus, nas duas instituições em que trabalho, apresentaram episódios de pânico e ansiedade. Uma sequência de moças e rapazes se sentindo no limite, não apenas pelas responsabilidades que a faculdade exige, mas por uma sensação de desesperança e medo, sem exatamente saberem explicar de onde vinham esses sentimentos. Elas e eles, na verdade, eram apenas reflexo do que vem acontecendo com todas e todos nós. Nas últimas semanas, eu também senti os nervos à flor da pele. Resultado de uma mistura de obrigações profissionais, pessoais e de questões de saúde que parecem correr mais rápido do que posso alcançar. Amigos e colegas de trabalho revelaram a mesma impressão. Um amigo meu traduziu melhor. “Parece que todo mundo virou uma bomba-relógio prestes a explodir”, disse ele. Sem dúvidas, aprendemos a verbalizar com menos receio e tabu quando nossa saúde mental está por um fio. Assim, temos mais pessoas falando abertamente sobre isso, identificando e avisando que não estão bem e precisam de ajuda. Ao mesmo tempo, sim, o mundo parece mais desafiador, com instabilidades geopolíticas e socioeconômicas, disputas entre poderosos que infligem sofrimento a inocentes, violência urbana em escalada, perdas de direitos e a noção de que o fio de humanidade que nos conecta se rompe cada vez mais. Tudo em tempo real na internet. Não percebemos, mas o externo afeta muito como nos sentimos. Tem tudo aquilo da vida que precisamos dar um jeito, e tem também essa energia de planeta em ebulição que gera ambiguidades, acelera vulnerabilidades, torna as situações mais complexas. O que fazer? Em um dia de semana em que o mundo muito me afetava, desacelerei para cozinhar. Não sou uma cozinheira de mão cheia, como dizem por aí, mas sei preparar uma refeição gostosa, cheia de temperinhos. Duas horas entre preparar e me alimentar. Me organizei. Cozinhar é um ritual que me organiza internamente, me permite pausar e ganhar forças para seguir em frente com mais equilíbrio. Resolvi fazer uma enquete no story do Instagram perguntando às pessoas o que as organizava. Banho e música saíram na frente. Muitos me acompanharam no cozinhar. Ler e escrever estavam lá - lembrando que há uma técnica chamada escrita terapêutica: coloque no papel o turbilhão que bagunça a cabeça e veja como a tranquilidade se instala no coração. Exercícios físicos e amigos apareceram como outros itens que ajudam a nos centrar. Ontem, um sábado, coloquei essas sugestões em prática. Música para cozinhar e tomar banho. Ler e escrever enquanto estudava o Sagrado Feminino à luz de uma vela, com chá de erva doce e essência de gerânio no difusor. Café da tarde com meus pais, a companhia dos meus bichinhos de estimação, mensagem de WhatsApp trocada apenas com meu irmão - meu primeiro e sempre grande amigo. Depois, 14 horas offline. O mundo continua difícil e tenho muitos compromissos para lidar. No entanto, parece um pouco menos assustador e um pouco mais possível de ser enfrentado com leveza. Te organiza. Não porque suas dores vão desaparecer no estalar dos dedos. Mas porque em meio a tanta sombra há a claridade do que nos acolhe e nos ajuda a continuar. Daqui 15 dias, no meu próximo texto, falaremos mais sobre essas questões a partir de um livro que comecei a ler esses dias. Os tempos são incertos - o que torna ainda mais essencial criarmos uma vida com significado. *** P.S.: se puder, leia este texto ouvindo Faith’s Hymn, de Beautiful Chorus. No tempo que restar da música, feche os olhos, respire e cuide de você.