[[legacy_image_321189]] Você já ouviu falar em ‘caçadores de tendência’? Sabina Dewik é pioneira no ramo e trouxe a metodologia para o Brasil em 1999. Com mais de 22 anos de atuação, ela desempenha parcerias com empresas, ajudando-as a interpretar os sinais do futuro, como forma de obterem melhores resultados perante as mudanças da sociedade. Sabina conta aqui um pouco sobre o que é ser uma ‘caçadora’ e o que se pode esperar com relação às tendências para 2024. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Como é o trabalho de um caçador de tendências? Ele é um profissional que se dedica a rastrear os sinais da mudança do mercado e da sociedade, para que possamos identificar esse futuro que já está acontecendo. Temos manifestações em produtos, serviços, varejo, produtos culturais, em novas formas de agregação social, que vão nos dando indícios de como a gente pode se preparar melhor para esse futuro. Então, é um trabalho bem estratégico. Fazemos uma pesquisa do que está acontecendo em vários segmentos para saber quais são esses padrões que se repetem globalmente. Inferimos o que vai ser uma tendência para que organizações, empresas, instituições e empreendedores possam se preparar e se antecipar para esse futuro. Como funciona esse processo de ‘caça’? A gente tem uma fase de observação, onde olha para tudo o que está acontecendo. Há uma metodologia que se chama de 4 Ps. São os quatro pesos da sociedade, em inglês: people, que são as pessoas; places, os lugares; plans, os planos culturais; e projects, os projetos. Olhando para essas quatro dimensões, conseguimos rastrear o que chamamos de zeitgeist, que é uma palavra em alemão que usamos muito em pesquisa de tendências, que quer dizer o espírito do tempo. Então, mais do que radiografar um comportamento isolado, a gente consegue detectar qual o o espírito do nosso tempo e o que está acontecendo em termos relacionais, econômicos, sociais e culturais. A primeira coisa é olhar como as pessoas se comportam, quem são, como se agregam socialmente, como consomem. Que novos tipos de comportamento as gerações estão trazendo à nossa sociedade. O segundo P, de lugares, detecta quais são esses locais que encarnam novos comportamentos. A terceira dimensão tem a ver com planos culturais, seja uma exposição de arte, filme, música, campanha de publicidade, festival, cinema, série ou mídias sociais. Como normalmente são produzidos por artistas, são grandes e inovadores, então muitas vezes a gente consegue detectar algo que está ali no seu início. Por último, olhamos para projetos governamentais, institucionais ou de alguma empresa que possam impactar a relação da pessoa com seu próprio entorno. A gente observa, detecta e interpreta, porque não adianta só captar os sinais, tem que entender quais são os valores por trás do que se captou e depois direcionar: quais são os insights estratégicos e como isso vai impactar os negócios e a sociedade. O que vai ser tendência em 2024 com relação a trabalho, consumo e comportamento? As tendências surgem numa evolução. Há alguns indícios de 2023 que mostram o que vai ser 2024. O primeiro é que estamos num mundo que chamo de policrise, em que a gente está vivendo não mais crises isoladas, como econômica, ambiental, social e geopolítica, mas todas elas estão convergindo e se fundindo. A soma de todas essas crises se torna um todo muito maior, mais complexo. Isso significa que, primeiro, estamos num contexto de mundo em que a primeira coisa é que o olhar para isso acabará determinando como vão acontecer as coisas. É um olhar mais sistêmico. A segunda coisa é um aumento de temperatura, literalmente, na questão ambiental. Houve muitos eventos climáticos. No Litoral Paulista, no início do ano, teve desastre, as pessoas ficaram isoladas por conta das chuvas intensas, tivemos um calor intenso. O mundo, literalmente, está mudando. A gente não fala mais de mudança climática, mas sim de emergência climática. Já se fala de fervura global ao invés de aquecimento global. Isso quer dizer que a questão ambiental fica mais importante, não só como uma questão de poder público, mas das empresas. Essas mudanças climáticas estão demandando também novas atitudes, novos produtos que olhem para isso. Não é mais só ser sustentável, é a gente regenerar. Então, esse consumidor consciente está demandando que as empresas reduzam a sua pegada ecológica, enfatizando os aspectos de reutilização, de redução dos impactos ambientais. O mercado de second hand (comércio de bens de segunda mão) vai ficar mais importante, assim como a economia circular, o ESG. A gente está numa era que vai além da sustentabilidade, numa era regenerativa. Quais seriam outras principais mudanças que devemos esperar para 2024? Acho que tem a ver com tecnologia. Esse ano de 2023 foi o ano da inteligência artificial, a gente viu uma evolução. Antes de 2023, as pessoas não tinham ainda ouvido falar de ChatGPT e esse tipo de tecnologia, ligada à inteligência artificial generativa, ficou democrática. E a gente tem aí uma projeção de que esse tipo de tecnologia deve contribuir para US\$ 16 trilhões na economia até 2030. O impacto nos negócios, nas profissões, no mundo do trabalho vai ser muito grande. Há uma questão aí, não só com a inteligência artificial, mas envolvendo a automação. Já se sabe que a força de trabalho humana vai ser substituída por software, por robô, por isso tem toda uma discussão sobre as novas profissões, novos empregos, novas qualificações e habilidades que os empregadores vão precisar aprender. Com relação ao consumo, tem um consumidor que quer uma experiência que o permite comprar fisicamente, mas com facilidades e melhorias possibilitadas pela tecnologia. Quer experiências presenciais e digitais integradas. Muitas vezes ele olha no físico e compra on-line. A gente tem uma potencialização da tecnologia, o mundo on e o off, o virtual e o real. Então, desde robôs no atendimento do balcão, drones de entregas, reconhecimento facial, realidades aumentadas, imersivas, metaversos, web 3.3, assentimento via voz, a gente tem todo um novo mundo de automação e de tecnologias que são superimportantes e vão impactar todos os setores. Qualquer segmento precisa olhar para esses impactos e aprender essas novas habilidades. Como estamos num mundo cada vez mais tecnológico, cada vez mais será necessário o trabalho de habilidades humanas. Já há até um comportamento surgindo, que é o chamado made by human (em português, feito por humanos). Então, aquilo que é feito por uma mão humana, por uma inteligência humana, vai estar com categoria de luxo. Isso porque, como as tecnologias, as inteligências artificiais, poderão fazer qualquer coisa em pouco tempo, como textos, imagens, vídeos, análise de dados, aquilo que é humano ficará cada vez mais premium e terá um caráter de excelência. A criatividade humana vai se misturando com a tecnologia. Ao que mais devemos estar atentos? Eu apontaria também a questão do bem-estar das pessoas. O Brasil é segundo país com população mais ansiosa do planeta, só perde do Japão. Estamos num mundo do trabalho com uma taxa de burnout absurda, com cada vez mais casos de pessoas com doenças psiquiátricas e questões emocionais. É muita informação, muita coisa para dar conta. A tendência é olhar mais às questões de bem-estar financeiro, corporal, espiritual e emocional. Isso vai ter impacto nas empresas, no varejo, na forma da gente consumir, na desaceleração. Vejo que cada vez mais vamos precisar atender essa demanda das pessoas por se desacelerar, pausar, cuidar, olhar para questão emocional com mais cuidado. Toda empresa precisará olhar para essa questão dos colaboradores. Estamos vivendo uma pandemia silenciosa de saúde mental. Outra coisa importante quando a gente fala de tendências são as novas vozes, a diversidade, a inclusão. As marcas vão precisar reconsiderar os seus clientes como ativistas. As pessoas são impulsionadas a tomar essas decisões por uma nova gama de influência, desde a causa da mudança climática até a questão da privacidade dos dados, de novas definições de identidade. Esse conceito de identidade tende a evoluir cada vez mais. Além do sexo, do gênero, serão incluídas atitudes sustentáveis, os direitos para as minorias. A gente tende a ter novos parâmetros de sentimento, de identidade, de raça, de gênero, de idade.