[[legacy_image_152848]] Outubro de 2021, a 425 km de altitude. A Estação Espacial Tiangong, da China, após um alerta, realiza uma manobra emergencial para evitar uma colisão catastrófica com um satélite norte-americano. O incidente, o segundo em seis meses, gerou não só acusações e protestos diplomáticos, mas também alertas da comunidade científica, que reiterou o perigo representado por mais de 20 mil fragmentos e pelo menos 4.550 satélites ao redor do Planeta. Apenas uma empresa prevê lançar outros mil ainda em 2022. No ano passado, em pelo menos três oportunidades, tais colisões foram evitadas. Em uma delas, por ínfimos dez metros de distância, quando um satélite inativo norte-americano quase atingiu parte de um foguete russo. E no mês passado, foi a vez de a Nasa adiar uma caminhada espacial por causa de preocupações com detritos espaciais. DetritosPara uma órbita já congestionada, esses choques geram milhares de pedaços. O primeiro grande exemplo do risco dessas colisões aconteceu também em fevereiro, mas há 13 anos, quando outro satélite inativo, dessa vez russo, atingiu um norte-americano. Resultado: destroços que se espalharam por uma região entre 500 e 1.300 quilômetros de altitude, se deslocando a dezenas de milhares de quilômetros por hora. Para rastreá-los, um batalhão de cientistas e operadores – inclusive no Brasil, por meio do Observatório Brazópolis (MG) – atua 24 horas por dia para tentar antecipar o pior. A dúvida não é se isso vai acontecer e, sim, quando. EstratégicoAtualmente, a maior parte dos satélites se destina para telecomunicações, pertencendo a empresas privadas. Apenas a Space X, dos Estados Unidos, responde por cerca de 1.700 artefatos que estão em órbita. A proposta é gerar uma rede global de pontos de acesso à internet. Para isso, o projeto prevê lançar 12 mil satélites, mais do que todos os 75 países que hoje possuem acesso a uma tecnologia crucial para a telefonia, a internet, os sistemas de posicionamento global, a telemedicina e a previsão do tempo, entre outras funcionalidades existentes. Como ocupar o espaço que circunda a Terra é algo estratégico, a corrida rumo a esse filão comercial está apenas começando. Grandes empresas planejam lançar outros 40 mil satélites no decorrer dos próximos anos, aumentando os riscos e a nossa dependência. Sem uma legislação global que defina direitos e responsabilidades, e junto à desconfiança e às rusgas entre russos, chineses e norte-americanos, poucos resultados efetivos podem, entretanto, ser esperados. As pesquisas realizadas com o objetivo de desenvolver naves capazes de capturar satélites ainda são incipientes. Testam-se também satélites que deixam a atmosfera após concluir a vida útil. Todavia, por enquanto, a melhor opção é monitorar – e torcer. Tipos, faixas e temoresDos 4.550 satélites em órbita, cerca de 600 estão na faixa mais alta, acima de 35.780 km de altitude, onde predominam os satélites de comunicação. Na faixa logo abaixo, entre 35.780 e 2 mil km, vêm os sistemas de posicionamento global por satélite (cerca de 150). Mas é na órbita mais baixa, entre 2 mil e 180 km de altitude, que está a maior parte: cerca de 3.800 satélites. Nessa camada, se encontram os milhares de satélites da Space X. De tão presentes, eles chegaram a ser visíveis a olho nu, até que a empresa aplicou revestimentos menos reflexivos. Deu certo, mas não a ponto de evitar uma interferência no trabalho dos observatórios terrestres. Como novas empresas já estão aptas a entrar nesse mercado, teme-se uma situação que inviabilizaria estudos astronômicos e até mesmo o rastreamento de asteroides. De olho no céuEm Brazópolis (MG), a 450 km de Belo Horizonte, está localizado o único observatório no Brasil dedicado a rastrear lixo espacial na atmosfera da Terra. Ele foi construído e inaugurado em 2017, por meio de uma parceria entre o Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) e a Agência Espacial Russa. Os dados são enviados para a Agência Espacial Europeia (ESA), para a Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) e, obviamente, para a Rússia. As informações servem para eventuais desvios de rota e para a programação de futuros satélites. [[legacy_image_152849]] As 3 mil crianças ouvidas na galáxiaHá exatamente um ano, o Brasil colocava em órbita o seu primeiro satélite de observação da Terra 100% nacional. O Amazônia-1 foi lançado da Índia e se juntou a outros dois satélites brasileiros de sensoriamento remoto em operação, o CBERS-4 e o CBERS-04A, produzidos em parceria com a China. FinalidadeEsses dois tinham vida útil de dois anos, mas permanecem ativos desde o lançamento, em 2014 e 2019, respectivamente. Enquanto o CBERS-4 pesa 2 toneladas, o Amazônia-1 tem 640 quilos e é um nanossatélite – uma tecnologia dominada por 20 nações até o momento. O Amazônia-1 tem como objetivo monitorar o desmatamento na região amazônica e o desenvolvimento da agricultura em todo o território nacional. Já as imagens geradas pelos CBERS se destinam, além de acompanhar o desmatamento e as queimadas, ao monitoramento de recursos hídricos, áreas agrícolas, crescimento urbano, ocupação do solo e educação, entre outras aplicações possíveis. TijolinhoPorém, poucos sabem que cabe ao brasileiro Junior Torres de Castro, um radioamador de Botucatu (SP), a real primazia pelo primeiro satélite “amador” nacional em órbita – nesse caso, um aparelho que tinha como função transmitir mensagens de paz gravadas pelo próprio Castro junto a 3 mil crianças de vários países. Essa incrível aventura começou com o lançamento do Sputnik, em 1957, o primeiro artefato humano na órbita da Terra. Inspirado pela conquista soviética, Castro passaria os próximos 33 anos desenvolvendo o seu sonho, até o lançamento do Little Brick (Tijolinho). Enquanto o Sputnik ficou em órbita por seis meses, o Tijolinho, um cubo com 23 cm de lado e 12,92 quilos, funcionou por oito anos (dois além do previsto). Bastava sintonizar a sua frequência de transmissão para ouvir as mensagens de paz. FaçanhaPara tal façanha, Castro visitou vários países, conquistando apoio e amigos, que permitiram vencer barreiras quase intransponíveis. Para poder utilizar materiais que permitissem a “sobrevivência” do satélite no inóspito ambiente espacial, Castro precisou, por exemplo, morar nos Estados Unidos e ter o seu trabalho monitorado. Foi a única maneira para que o governo norte-americano aceitasse compartilhar os equipamentos necessários, exigindo que todo o trabalho do radioamador brasileiro fosse realizado sob a supervisão dos cientistas da Nasa. Castro faleceu em 2018, deixando não só um legado para toda a Ciência brasileira como um exemplo de perseverança e crença na paz e no entendimento entre as nações, condições hoje mais do que necessárias para que nós possamos utilizar a órbita terrestre com segurança.