[[legacy_image_263583]] Quando defendi minha dissertação de mestrado, em 2014, me sentia absolutamente estressada. A vida acadêmica é uma riqueza de conhecimentos, trocas de ideias, fundamentação de conceitos e pesquisas capazes de transformar a sociedade para melhor. Mas isso exige tempo (com dias de 30 horas), muitas leituras (infinitas) e análise de autoras e autores brilhantes – que parece que jamais conseguiremos alcançar. Então, naquele momento que desejei tanto, a única coisa que eu queria era fazer a apresentação para a banca e jogar o meu trabalho na estante, sem olhá-lo tão cedo novamente. Meu pânico em falhar era tamanho que apenas três amigos – contra a minha vontade – assistiram à defesa. Nem meus pais deixei ir. Tirei dez e quase ninguém viu. Os anos se passaram, com a dissertação intocada na prateleira até 2018. A vontade de prestar o doutorado apareceu. E cá estou eu, lutando contra o tempo, em leituras infinitas, pedindo perdão aos amigos pelos cafés pendentes, absorvendo o que autoras e autores brilhantes têm para me oferecer – e um pouco menos paranoica. É difícil, mas gratificante. Também porque, hoje, sou professora universitária e muito do que aprendo já transfiro para minhas alunas e meus alunos ou converso com colegas docentes. Dizem que, no doutorado, a gente se sente mais sozinho. Mas, como há essa troca imediata, sinto menos tal solidão. Mais do que isso: aprendi a confiar em mim mesma como pesquisadora. O discurso da autoconfiança dos últimos anos virou excesso, deixando pouco espaço para as pessoas sentirem que precisam do outro. O sentimento de autossuficiência (comum entre acadêmicos) nos deixa isolados demais e, de repente, ansiedades e tristezas profundas tomam conta, sem entendermos bem o porquê. Precisamos do aconchego da conversa e do abraço, de atividades e situações que nos tirem do mental ou que nos mostrem que não sabemos tudo, não importa quanto a gente estude. É daí que vem uma confiança genuína, que nos diz que somos bons em algo, mas que de nada adianta ser bom e não dividir conhecimento sem arrogância ou escutar para melhorar. Seja para ensinar, seja para receber críticas e observações para enxergar diferentes perspectivas. Ao desenvolvermos essa confiança genuína no lugar do discurso inflado de “você é um vencedor, uhu”, abrimos espaço para rever com cuidado e carinho o que construímos até aqui. Nesta semana, terminei de revisar e atualizar pontos da dissertação, que vai virar livro. Na época da defesa, no desespero de não falhar, nem prestei atenção direito no resultado final do trabalho. Lembro que não fiquei satisfeita, achando que precisava pesquisar mais, escrever mais – e mal acreditei na nota dez. Perdi parte da emoção daquele dia, que não se repetirá, porque eu queria perfeição. Lendo agora, estou realmente feliz em perceber que é uma pesquisa que contribui com os estudos sobre fluxos migratórios, os impactos da xenofobia (o preconceito e a discriminação contra estrangeiros e/ou estranhos) e o desafio de se sentir parte de um lugar. Ou nunca mais se sentir parte. Foram nove anos para, de fato, ter orgulho do que fiz e constatar a importância daquilo. Não faça isso. Confie. Não é para ser perfeito. Seja o que for que você constrói, é para fazer o mundo girar. O seu, o de quem te cerca e até o de quem desconhece seu esforço, mas que viverá com mais dignidade, graças ao que você acreditou que poderia realizar.