[[legacy_image_251321]] Chegou o mês dedicado às mulheres. Evoluímos bastante nos últimos anos do “parabéns pelo seu dia, toma aqui uma flor”, em 8 de março, para debates e reconhecimento de conquistas. Mas a condição feminina não nos permite descansar. Há um mês, a Fundação Jean-Jaurès e a ONG feminista Equipop, ambas francesas, divulgaram um relatório compilando retrocessos nos direitos das mulheres em todas as regiões do mundo em 2022. Inclusive no Brasil, com desmonte (ou manipulação) de políticas públicas que nos atingiram diretamente. O relatório está no site www.jean-jaures.org. De tempos em tempos, nossas conquistas entram em xeque. Em geral, bem nos momentos em que provamos que as sociedades, do jeito que funcionam hoje, estão longe de serem boas para todas as pessoas. Socialmente, economicamente, emocionalmente. E que sim, quando mulheres entram no jogo, são capazes de transformar essa realidade, colocando em equilíbrio para todos os gêneros oportunidades, possibilidades, conscientizando e inspirando. Há quem não deseje tal equilíbrio – assim como muita gente é solidária nas emergências, mas não faz questão de justiça social. Isso nos enfraquece e enfraquece nossos direitos, sobretudo alguns sensos comuns, repetidos à exaustão, também por muitas mulheres. Ideias nascidas do achismo e do machismo, jamais analisadas olhando além da própria bolha. Selecionei algumas. Ela que não tivesse tantos filhos: mulheres não fazem filhos sozinhas. Mas isso sempre recai sobre elas, com grosseiras observações, como “feche as pernas”, a responsabilidade. O acesso a métodos anticoncepcionais não é tão simples. Para quem tem um orçamento apertado, comprar pílula pesa nas contas. A retirada gratuita em posto de saúde tem empecilhos. Desde não abrir aos fins de semana, o que dificulta para quem trabalha, até a distribuição irregular – e não adianta tomar um mês e no outro não. A camisinha é mais acessível. Não são poucas, porém, as mulheres que acabam espancadas por pedirem aos parceiros que coloquem o preservativo. O estupro dentro do casamento é uma realidade. Uma mulher pode não mais desejar ter filhos, mas ser violentada repetidas vezes, até engravidar. Ela que saia de casa com os filhos: não é incomum mulheres vítimas de violência doméstica serem acusadas de coniventes com a situação que vivem. Quem está com a autoestima estilhaçada e o coração apertado pelo medo constante não reage facilmente. Se encontra em um grau de vulnerabilidade paralisante. Muitas vezes, longe da família, isolada como parte do ciclo de violência no qual está inserida, e dependente financeiramente, essa mulher não sabe a quem recorrer. Ou teme pedir ajuda, não dar certo e apanhar mais ainda. Ser morta mesmo com medidas protetivas concedidas, em um sistema ainda com falhas que não a protege completamente. Importante: afeto não se desliga apertando um botão. As mulheres podem, de fato, amar os parceiros, os pais de seus filhos. Acontece muito quando são homens que enfrentam o alcoolismo. Homens que quando não bebem são bons pais e maridos, se arrependem de verdade, mas lutam contra uma doença. Ela já sabe bem o que faz: dizer que meninas em seus 12, 13, 14 anos provocam sexualmente e acabam abusadas por isso é cruel e desumano. Curioso é que quem critica as garotas não pensa na música sexualizada que coloca para tocar nas festinhas infantis, no incentivo a que pareçam minimulheres na maneira de se vestir e se comportar. Enquanto isso, homens em seus 20, 30 anos são considerados garotos, que não tiveram a intenção, vejam só, de participar de um estupro coletivo, por exemplo. Era só uma “brincadeira”, “ela parecia querer”, “é coisa de homem”. Não é normal condenar meninas e passar a mão na cabeça de marmanjo. Esses são apenas três exemplos, entre tantos outros, que mostram como a realidade das mulheres é complexa demais para que seja definida de modo simplista. Parem de nos julgar a partir das suas limitações. Mulheres, parem de julgar outras mulheres olhando só para o mundo que vivem. Vocês reforçam consciência coletiva perigosa sobre o feminino, que mais dia, menos dia, recairá de alguma forma também sobre vocês.