[[legacy_image_215046]] Um ano estranho, mas, ao mesmo tempo, interessante e com os indispensáveis momentos de alegria que sempre existem. Assim embarco no último trimestre de 2022, que trouxe bonitas surpresas, alguns sustos e a concretização de projetos que falam alto ao coração. Os quais começaram com pequenos passos e se tornaram evidentes em importância, diante dos desafios impostos nestes primeiros anos da década de 20 do século 21. E como é bom perceber que faz sentido ouvir a intuição. Entre as intenções que deram muito certo está meu trabalho como professora de Comunicação Não Violenta (CNV). É um método criado pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg, que morreu em 2015, deixando legado precioso sobre lidar com relacionamentos e conflitos. Diante de polarizações das mais variadas, compreender como comunicar nossos reais desejos e necessidades e quais emoções estão por trás do comportamento do outro permite harmonizar relações e dar abertura a diálogos compassivos. Está na moda reforçar que é preciso ter diálogo. Mas o que a maioria das pessoas vem fazendo é apenas esperar o interlocutor terminar de falar, sem refletir sobre, e jogar de volta na conversa suas certezas, sem deixar espaço para entendimento. O diálogo mesmo começa pelo que definimos como escuta ativa, ou seja, se despir de tudo aquilo que você julga absolutamente correto para ouvir de mente aberta quais dores a fala de alguém carrega. É um ponto primordial e que não consideramos em nossos embates: traumas, medos, tristezas e opressões latentes e não resolvidos são expressos diariamente em ações, reações e dizeres. Pesquisas indicam que, após 15 minutos de discussão, os envolvidos passam a abordar assuntos nada relacionados com o que estava em questão. É quando iniciamos a DR para falar sobre a viagem de férias – já que cada um quer ir para um lugar – e descambamos para “porque, em 1998, você me deixou esperando no carro e…” Complete como quiser e note o quanto deixamos mágoas e ressentimentos influenciarem as nossas relações. Esse é um exemplo simples, mas que representa coisas contínuas e que levam a sofrimentos gigantes. Sofrimentos que acabam reproduzidos de forma agressiva em relacionamentos de todas as esferas da vida: trabalho, estudos, família, amigos, afetos. É essencial dizer que CNV não se trata apenas de não levantar a voz. Tom de voz baixo pode vir acompanhado de ameaças, abusos e intimidações. Inclusive no ambiente profissional, o que é assédio moral. A mensagem é sempre metade de quem fala e metade de quem ouve. As compreensões das mensagens são repletas de nossas experiências e histórias. Saber que está todo mundo machucado em algum grau ajuda a receber com mais suavidade as palavras proferidas por alguém. Especialmente saber que não é sobre você uma fala agressiva. É sobre algo não resolvido na trajetória do outro. Para quem entende a CNV como ser pacifista em cima do muro, eu diria que é justamente sobre derrubar muros e construir pontes. Buscar entendimento e compaixão quanto às expressões de cada um de nós é internalizar que a imperfeição nos abarca a todo instante. Com ela, podemos lidar. Com a perversidade, não. Falas que excluem, amedrontam e colocam alguns acima de outros são desumanidade. Vale a reflexão.