[[legacy_image_246547]] Imagine uma ilha habitada por poucas centenas de pessoas, sem ligação com o continente, na Irlanda de 1923, em plena guerra civil entre católicos e protestantes, na qual o único contato com o mundo é o barulho das bombas e tiros que explodem no continente. É neste cenário, com muito tempo livre para pensar, que se passa Os Banshees de Inisherin, drama irlandês pesado em que a falta de comunicação, em todos os aspectos, leva um acontecimento relativamente simples a um nível inacreditável de tensão e violência. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O longa ganhou o Globo de Ouro na categoria Comédia ou Musical, mas não é, definitivamente, nem uma coisa nem outra. É verdade que a música está presente na trama, só que de uma maneira muito tensa. Um dos protagonistas, Colm, é violinista. Somos apresentados a ele no momento em que decide romper a amizade, sem que nada tenha acontecido de errado, com seu grande companheiro de bebedeiras, Padraic. Colm (Brendan Gleeson) está no meio de uma crise existencial, atormentado por suas próprias questões. Não quer morrer sem deixar um legado, algo que o faça ser lembrado. E o amigo de bar representa o tempo perdido, que ele poderia estar dedicando à música e à composição de sua grande obra, ainda inacabada. Padraic (Colin Farrell, ótimo no papel de chato), o amigo, é um homem simples, que vive com sua irmã (a ótima Kerry Condon) na casa que era de seus pais e tem no encontro diário com o amigo, no bar, o ponto alto de seus dias. Ele não aceita o fim da amizade e confronta Colm, em diversos momentos, a ponto dele fazer uma ameaça radical: a cada episódio em que o amigo o chateie, ele vai cortar um dos dedos da mão. O nível de tensão, ainda mais em um lugar em que todos se conhecem e sabem tudo o que acontece, segue crescente, piorado ainda por duas figuras cuja influência será fundamental: Dominic, o “idiota da aldeia”, interpretado com competência pelo indicado ao Oscar Barry Keoghan. É quem faz as observações mais óbvias e certeiras e ainda assim o que mais demonstra sua própria fragilidade. A segunda é a senhora McCormick, cujo personagem é o mais intrigante da história e que pode ser encaixado na figura da banshee do título, que na mitologia celta é um ser maligno que tem o poder de prever mortes... O conflito acaba afetando todos em volta da dupla, incluindo até os animais de estimação de cada um deles. É inegável a qualidade do trabalho de Martin McDonagh, o diretor inglês filho de irlandeses que também é o autor do roteiro. O clima do filme, de conflito, desespero e de falta total de empatia, serve de metáfora tanto para o conflito da época, que acontecia do outro lado do oceano, quanto para as divisões políticas que vivemos nestes dias loucos. Por falar no diretor, assista também ao ótimo Na Mira do Chefe (In Bruges, de 2008), com a mesma dupla central formada por Colin Farrell e Brendan Gleeson, complementada por Ralph Fiennes. O filme mostra que a química entre o par central não é um acaso e está disponível no HBO Max. É inacreditável que o filme tenha vencido na categoria de comédia no já muito desprestigiado Globo de Ouro, mas como no Oscar não há esta divisão - e até em função do perfil dos filmes adversários -, pode ser que, de suas nove indicações, não leve nenhuma ou apenas a de roteiro. Essa situação vai ficar mais clara nas próximas semanas com as premiações dos sindicatos, mas nenhum prêmio diminui a qualidade desta obra densa e cheia de camadas, que faz pensar muito além da situação corriqueira que mostra em sua superfície. Assista!Nota do crítico: + + + +