[[legacy_image_259301]] Imagine uma sitcom que mistura o humor de escritório – às vezes, bem infantil – com a história dramática de um gênio bilionário da ciência e da tecnologia que se vê devastado pela morte da esposa. É essa a base da história de Instável, comédia original da Netflix que traz o galã (ou ex-galã, você decide) Rob Lowe como Ellis Dragon, o dono de uma empresa de biotecnologia que luta para salvar sua própria vida, sua empresa e também o mundo em meio à dor da viuvez e às brigas típicas de escritório, como a quantidade de café consumida pelos colegas. No momento em que a sua preocupação deveria ser a empresa que fundou, pressionada pelos acionistas, Ellis só quer saber da situação do filho que não consegue chorar a morte da mãe e do psiquiatra que a empresa lhe indicou – e que ele acorrentou no seu sótão para que não contasse sobre sua situação mental. Ainda sobre o filho (interpretado pelo filho de Lowe na vida real, John Owen Lowe, que estranhamente é a cara do ator Mark Wahlberg), ele quer distância do pai e aposta na carreira de flautista. Tem alma de músico, mas é realista o suficiente para perceber que ninguém contrata flautistas. Eventualmente, o rapaz acaba indo parar na empresa do pai, a contragosto, mas a companhia de duas cientistas com quem desenvolve um relacionamento que transita entre a amizade e o flerte o acaba prendendo no lugar. Os outros personagens do show também são ótimos. A CFO da empresa, Anna, que faz de tudo para proteger Ellis de si mesmo. As duas jovens cientistas que se envolvem com o filho do chefe mesmo sem querer. O amigo gay do protagonista. O psiquiatra emocionalmente dependente (e muito folgado). Gostei especialmente dos gêmeos – vilões e patetas ao mesmo tempo, eles são ótimos. Tem de tudo e para todos os gostos nesse zoológico. Voltando a Ellis, sua situação é meio que um reflexo da trajetória do próprio Lowe, cuja vida não foi fácil. Nos anos 80, quando ele explodiu como ícone sexual maior de uma geração que tinha Tom Cruise, Charlie Sheen e Andrew McCarthy, entre outros, o sucesso não lhe fez bem. Altas doses de álcool somadas à extrema vaidade que ser um símbolo sexual provoca e ao seu sucesso meteórico arruinaram sua carreira e, por muito pouco, quase o levaram à prisão por um caso em que filmou, sem consentimento, o sexo que fez com duas garotas – uma delas de apenas 16 anos. Lowe começou a retomar a carreira quando voltou para a tevê. Chamou a atenção e foi indicado ao Globo de Ouro pela série The West Wing. Fez um tremendo sucesso nas quatro primeiras temporadas de Brothers and Sisters. Descobriu que sabia fazer rir na ótima Parks & Recreation. E agora, em Instável, ri de si mesmo em um nível inacreditável. E o melhor: aos 59 anos, melhorou muito como ator. O humor é anárquico, típico de seriados como The Office e Parks & Recreation (esse último também teve a participação de Lowe em suas últimas temporadas). É tudo bem rápido e ágil e, aos poucos, vamos percebendo que, mesmo nem tão de perto, ninguém ali é muito normal. A primeira temporada, dividida em oito episódios de 20 e tantos minutos cada, pode ser facilmente assistida em uma única tarde no sofá.Nota do crítico: +++++