[[legacy_image_336296]] Insetos ao redor de uma lâmpada acessa, orbitando a luz em diversos ângulos, aparentemente desorientados. É fácil imaginar essa cena, um comportamento que agora mereceu a atenção de cientistas, que propõem uma nova teoria para o fenômeno. Para captar algo realmente relevante em tão prosaica atividade, o grupo, do Imperial College London, muniu-se de câmeras capazes de esmiuçar o voo em todos os seus detalhes, quadro a quadro. Perceberam, então, uma tendência. Ao se aproximar da fonte de luz, os insetos alteravam o voo, rotacionavam o corpo e passavam com as costas voltadas para a lâmpada. De ponta cabeça, em repetidas voltas, acabavam caindo. Diante dessa constatação, refizeram os testes, em áreas de floresta localizadas na Costa Rica. No ambiente natural, o voo apresentou uma tendência em seguir uma linha mais reta, tendo a Lua às costas. A hipótese que os cientistas ingleses alcançaram é de que a luz artificial é confundida com o brilho do satélite natural, a qual os insetos utilizam para orientar os deslocamentos. Obviamente, ninguém vai se lamentar se o preço a pagar pela iluminação artificial é ter insetos mortos. De certo, poucos reclamariam. Porém, como sempre, há um mas: todos sofreriam com a diminuição na população de comedores de insetos. E esse, justamente, é o outro lado da poluição luminosa, um fenômeno com o qual começamos a lidar, em grandes proporções, há menos de 150 anos, quando as primeiras cidades passaram a ter iluminação elétrica. As tartarugas são uma das vítimas mais populares. Campanhas foram feitas para reduzir ou eliminar os postes em áreas de deposição de ovos. Ocorre que os animais afetados vão além dos quelônios, incluindo morcegos, aves e répteis, entre outros. Entre 1992 e 2017, as emissões de luz artificial aumentaram cerca de 50% no mundo, de acordo com medições feitas por satélites. Já entre 2011 a 2021, o aumento ficou em torno de 10% ao ano. Na verdade, nem precisamos desses dados para constatar como a chamada poluição luminosa tem se intensificado. De forma muito mais simples, basta olhar para céu noturno. Quem em uma viagem a um local mais ermo, longe dos centros urbanos, não retornou encantado com a profusão de estrelas no firmamento? O céu não mudou. Nós que mudamos a nossa realidade. Importante lembrar que boa parte da Ciência e da expansão da humanidade se deveu justamente aos fenômenos celestes. Da matemática às grandes navegações, nos inspiramos e seguimos o espetáculo diário que a noite proporciona. Hoje, a maioria de nós nem sequer conseguiria identificar Vênus (a estrela d’alva) ou Marte. Temos geolocalizadores que nos ‘iluminam’ o caminho e que são de grande ajuda. Mas, indiscutivelmente, estamos perdendo essa contemplação e, com ela, a relação com a natureza que nos cerca. Resta ponderar o quanto perdemos ou ganhamos e, se possível, encontrar um meio termo que possa resgatar essa milenar ligação do ser humano com as estrelas. Reservas escurasHá dois anos, os governos do México e dos Estados Unidos criaram a maior reserva internacional para observação do céu noturno. No Brasil, ainda não existem espaços com esse objetivo, mas é uma tendência que vem se intensificando no exterior. Há, inclusive, um instituto internacional que classifica essas reservas. Atualmente, existem 15 áreas com essas características. Esses locais, além do apelo turístico, têm sua importância ecológica por preservarem o ciclo biológico de animais e plantas. DesorientaçãoEstudar a desorientação de insetos com a luz artificial pode parecer um trabalho esdrúxulo. Ocorre que essas pesquisas ajudam a entender outras situações, inclusive com humanos. Surfistas, por exemplo, quando submersos no turbilhão de uma onda, relatam perder a noção da direção da superfície. Aviadores, em momentos por vezes dramáticos, dependem dos instrumentos de bordo para saber se estão subindo ou descendo – e há situações em que a instrumentação também falha. Por isso, a importância de entender os aspectos que envolvem esses casos.