[[legacy_image_163916]] Por bilhões de anos, o solo do planeta recebe, diariamente, chuva e neve. Um volume em escala de grandeza tão incomensurável que a mente humana tem dificuldade para conceber e que a Ciência, agora, começa a compreender melhor e a se surpreender. Imagine assim: abrimos um imenso buraco, com mil metros de profundidade, do tamanho do estado da Bahia. Todo esse espaço seria coberto pelo volume de água existente em camadas de cerca de 10 quilômetros de profundidade. Tudo multiplicado por 10 mil. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Especulações Até muito pouco tempo atrás, desconhecíamos esse manancial. A capacidade de prospectar estava documentada até cerca de dois quilômetros de profundidade. Daí em diante, havia apenas especulações. Agora, mesmo sabendo que boa parte dessa água é salobra, recentes estudos chamaram a atenção para um desafio até então invisível, a partir da constatação desse imenso e tão antigo recurso natural. Os cientistas estimam que a água contida nas camadas mais inferiores, próximas aos 10 quilômetros de profundidade, esteve em contato com a atmosfera há cerca de um bilhão de anos. AntárticaDispersa em microfraturas, comprimida pelas rochas, a água, mesmo assim, é um lar para toda sorte de microscópicas criaturas. Novamente, as estimativas são superlativas. Calcula-se que a vida microbiana na água subterrânea represente mais de 10% da biomassa total do planeta Terra. A Ciência, por sinal, tem grande interesse em criaturas que vivem em ambientes sob estresse. Entender como evoluíram e se adaptaram aos mais inóspitos dos habitats geralmente implica na descoberta, ou desenvolvimento, de promissoras novas drogas para a Medicina. Curiosamente, por muito tempo acreditou-se que, com exceção do oceano, o maior reservatório continental de água do mundo era a imensa camada de gelo na Antártica e na Groenlândia. Agora, pouco a pouco, descobrimos que ela está mesmo abaixo dos nossos pés. TesouroE foi pensando nisso que a Organização das Nações Unidas (ONU) dedicou a Semana da Água, que se encerra hoje, ao tema Águas subterrâneas, tornando o invisível visível. “Fora da vista, a água subterrânea é um tesouro escondido que enriquece as nossas vidas” , diz a ONU, em comunicado, salientando que esse volume representa, atualmente, nada menos do que 99% de toda a água doce líquida existente na Terra. E a ONU ainda alerta: a sociedade precisa estar atenta à contaminação. Como a chuva e a neve, o resultado da ação humana se infiltra terra adentro, e, geralmente, o nosso legado não tem sido muito bom. Radar hídricoSe já é difícil descobrir água a grandes profundidades, muito mais complicado é fazer isso sob as geleiras. Sim, há água subterrânea nos polos, seja como rios correndo abaixo das montanhas de gelo, seja infiltrada em rochas porosas. Sabemos que estão lá, mas pouco conhecemos. Descobri-las nos ajuda, inclusive, em melhores previsões climáticas e sobre variações no nível do mar. Um estudo desenvolvido pela Nasa desde 2016 recentemente teve seus dados divulgados e confirmou que medições feitas a partir de aviões são capazes de indicar a presença desses mananciais. A proeza, obtida por meio de radares, pode suplantar em pouco tempo décadas de dados obtidos em longas e perigosas caminhadas e perfurações nas geleiras. Sem salRetirar o sal da água não é um processo fácil e muito menos barato, graças ao uso intensivo de energia, filtros e membranas purificadoras. Há também a questão do que fazer com a grande quantidade de sal (foto) que se obtém no processo. Agora, dois estudos revelam boas possibilidades nessa área. O primeiro deles conseguiu produzir um dessalinizador por menos de R\$ 200,00 e está sendo desenvolvido por pesquisadores chineses e norte-americanos. Já o segundo, de autoria de cientistas da Arábia Saudita, retira a água da atmosfera e também tem baixo custo de produção. Nos dois casos, os sistemas podem funcionar com energia solar. O próximo passo é aperfeiçoar a tecnologia e torná-la economicamente viável em larga escala. A ideia é que esses sistemas possam tanto funcionar em áreas urbanas quanto em locais ermos ou sujeitos a desastres ambientais, onde o fornecimento de energia convencional fica comprometido.