[[legacy_image_159278]] Conhecemos mais sobre a superfície da Lua do que sobre os nossos oceanos. Essa frase, tantas vezes repetida, já foi creditada até mesmo ao oceanógrafo francês Jacques Cousteau. Há quase 70 anos, ele publicou o seu primeiro livro, O Mundo Silencioso (1953), em alusão ao universo subaquático. O título, paradoxalmente, acabou consolidando um mito que reforça o quanto ainda desconhecemos a maior parte do território do planeta. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Abaixo da linha d’água, existe um mundo nada silencioso. Além da ação humana, o mar é uma cacofonia de sons, onde os peixes (e não só os mamíferos) possuem curiosas e intrigantes vocalizações. Agora, em um esforço que envolve mais de dez países, está surgindo a primeira biblioteca global de sons biológicos subaquáticos (Glubs, em inglês), um trabalho de enorme importância científica e, até mesmo, cultural. Afinal, leões rugem, sapos coaxam, corvos gralham e até cobras sibilam. Mas e os peixes? Caixa de ressonânciaA diversidade sonora deles é imensa. O seu corpo funciona como uma verdadeira caixa de ressonância. A bexiga natatória, por exemplo, é usada para flutuação, mas também pode virar um tambor. Algumas espécies emitem ondas sonoras atritando os ossos. O peixe-escorpião possui tendões ao longo de seu corpo. Acredita-se que a contração desses músculos gera propagação sonora. Há também os ruídos incidentais ou passivos, como mastigar, que podem transmitir informações. Ao analisar e associar os sons das espécies, explica Audrey Looby, da Universidade da Flórida (EUA), pode-se dizer quais estão numa área e até o que estão fazendo. EvoluçãoOs cientistas acreditam que os peixes evoluíram para conseguir fazer sons, porque essa é uma maneira eficaz de se comunicarem. Debaixo d’água, o som viaja mais rápido do que no ar e, em baixa visibilidade, garante que a mensagem ainda chegue ao destinatário. Até o momento, apenas revisando estudos dos últimos 150 anos, foi possível identificar cerca de mil espécies de peixes que emitem sons – número que os próprios cientistas consideram subestimado. Em geral, os sons emitidos pelos peixes são voltados à atração de parceiros, à defesa de fontes de alimento, territórios ou alertas sobre sua localização. Raramente são percebidos pelos humanos. Mas, na Flórida (EUA), moradores do condado litorâneo de Cabo Coral começaram a reclamar de um ruído que reverberava em suas casas. Um grupo de pesquisadores desvendou o mistério. Eram piraúnas, peixe que existe inclusive no Brasil. A comunidade acreditou quando especialistas em bioacústica cruzaram as reclamações e as gravações subaquáticas. A coincidência era perfeita. Quando as piraúnas emitiam os seus chamados de acasalamento, a vibração era sentida nas residências. Mas há quem fale mais alto. A corvina do Golfo (México), no acasalamento, emite sons equivalentes a ficar ao lado do palco de um show de rock: 177 decibéis (o tráfego intenso tem de 70 a 100). Há anos, os pesquisadores alertam sobre a poluição sonora subaquática provocada pelas atividades humanas, civis e militares. No Encontro de Ciências Oceânicas, realizado há duas semanas nos EUA, um estudo demonstrou que essa poluição está causando perda auditiva em tartarugas. É a primeira constatação desse tipo em um réptil, afirma Andria Salas, pesquisadora da Woods Hole Oceanographic Institution (EUA). Em alguns casos, a audição das tartarugas permaneceu afetada por dias, comprometendo a capacidade de localização e proteção de predadores. Apesar da inédita criação da Glubs, sons de animais marinhos são conhecidos desde a época de Aristóteles (384 a 322 a.C.). Hoje, quem quiser pode se aventurar por esse universo por meio da internet. Entre as opções atuais estão o recém-criado Fishsounds, e o Lido, projeto que conecta observatórios oceânicos profundos e a um clique disponibiliza todos os tipos de som, dos de baleias aos de terremotos. Nesse sentido, é o mesmo processo do Fishsounds. A diferença é que esse último é focado apenas em sons de peixes. Assim como a Glubs, ele também pretende permitir a participação pública em seu acervo. Outra ambição é criar um padrão de classificação para toda essa fauna. Por enquanto, um “boomp” pode representar uma espécie de peixe-sapo, um “unk” o bagre e um “apito”, por assim dizer, uma piranha. HidrofonesUma consulta on-line ao Fishsounds revela um mundo curioso e por que não bizarro, incluindo intrigantes estudos que mostram o que até parece ser uma vocalização em grupo. Esse trabalho se dá por meio da biocústica, na qual hidrofrones, softwares e até a inteligência artificial são ferramentas de enorme relevância diante da vastidão oceânica. Definir as frequências sonoras específicas para cada espécie abre, por exemplo, novas perspectivas para o manejo e sua conservação. Pode ajudar na prevenção da pesca predatória, na definição de rotas migratórias, de áreas de acasalamento e procriação, principalmente em grandes profundidades. A quase 200 metrosHá poucos dados nessas regiões. Foi apenas no final do ano passado que cientistas portugueses documentaram, pela primeira vez na Europa, emissões sonoras de peixes a quase 200 metros de profundidade, mais exatamente nos Açores. Lá, a maior incidência de sons se deu no período noturno e crepuscular, quando a comunicação visual está mais limitada. Meros, peixes-galo, peixe-lua, prombetas e anchovas estão entre os possíveis responsáveis pelas “conversas” locais. No Brasil, estudos feitos no Litoral Sul Paulista, durante o período de pesca, também identificaram vocalizações entre peixes. Aqui, estamos falando de espécies como a tainha, da mesma “família” da truta e do salmão.